segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Nova Ioga

Olha que tchuque-tchuque:

Poemas do Wilberth

Dois poemas de um cara chamado Wilberth, que meu tio Buza conheceu na UERJ (mas acho que não é o professor da UFES):

CREPÚSCULO

Cai o sol...

Ai que tombo!


(SEM TÍTULO)
Quem tem boca vai a Roma
Quem tem boca vai a Londres
Quem tem boca vai à França

Pobre não tem boca

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Yves Jamait

Muitas pessoas acham que a música francesa se resume a Edith Piaf e a Charles Aznavour (que eu adoro, diga-se de passagem). Alguns, estranhamente, continuam com essa impressão depois de estudar francês. Vai entender... Como você pode verificar na seção Música deste blog, a França tem muito o que oferecer a seus ouvidos: muitos ritmos, muitas influências, muita gente boa. E olha que eu nem sempre me lembro de colocar canções aqui; se eu fosse postar alguma coisa sobre todos os artistas que me agradam, acho que faltaria espaço.
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Outro comentário que às vezes escutamos é que a música francesa é "esquisita". Trata-se, frequentemente, de comentários feitos por alunos que estão muito habituados a só escutar artistas americanos. OK, gosto é gosto, tem gente que acha que isso não se discute - eu discordo, mas bom... Seja como for, o ritmo francês por excelência é a chamada chanson. É um rótulo, a meu ver, tão vago quanto MPB: um guarda-chuva que inclui artistas completamente diferentes entre si. Mas alguns traços são marcantes: um certo ritmo "bem francês" e uma grande atenção dada ao texto, muitas vezes salpicado de humor.
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Yves Jamait, de quem eu apresento três músicas aqui, é um bom representante desse estilo. Suas letras, que vão do divertido ao sério, usam e abusam de um estilo muito próximo ao da fala coloquial, e são excelentes para aprender francês. Perceba o uso dos apóstrofos: muitos deles estão "errados", e indicam o e caduc (que não se pronuncia). É importante lembrar que, de acordo com a regra ortográfica, nunca se usa apóstrofo antes de consoante; afinal, esse sinalzinho indica que a vogal anterior caiu para não produzir hiato com a que vem depois dele. Um dia volto a falar do assunto. Outros aspectos marcantes são os "ne" da negação, que vão pras cucuias quase sempre, além de uma série de expressões correntes que você pode me perguntar caso não encontre no dicionário..
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OK tu t'en vas quebra completamente com o clichê você-vai-me-abandonar-e-meu-mundo-vaicair. Reste é plutôt um poema de amor, mas com um balanço muito legal - e a voz inconfundível de Jamait cria todo um clima. Jean-Louis eu fui conhecer hoje e postei porque o clipe é um barato. No comentário, você encontra o texto da primeira e da terceira (em Reste, você acompanha na tela mesmo). Nos vídeos relacionados, dá pra fazer a festa!





quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Não foram poucas as vezes em que algum conhecido ou algum aluno, ao se deparar com meu ateísmo declarado, me disse algo como “não acredito na religião, mas acredito na ”. Trata-se, em geral, de pessoas que estudaram, que ouviram críticas perfeitamente razoáveis, às vezes duríssimas, à igreja católica, às diferentes denominações protestantes ou, ainda, ao judaísmo ou ao Islã. Trata-se, em geral, de pessoas que não frequentam nenhum culto, que não dão importância a rituais místicos ou a práticas transcendentais. Trata-se, em geral, de pessoas que nem acreditam no deus das religiões ou que fabricaram para si mesmas um deus tão vago, tão abstrato, tão indefinível, que acho que é só um modo de não confessar para si mesmos que são ateus.
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O que mais me incomoda em “ateus enrustidos” é que muitas vezes eles têm um lado condescendente com a religião, um certo medo de chocar os outros ao dizer o que eles realmente pensam, uma estranha vergonha de seu ceticismo. No caso particular desses que dizem “eu acredito na ”, parece-me que o problema é uma compreensão meio vaga do sentido desse termo.
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Fé é uma palavra empregada em diversas expressões, como “tenho fé que vai fazer sol”, “vai com fé que dá certo” ou “Fulano não tem fé na vida”. Acredito que estamos, aqui, diante de expressões idiomáticas nas quais “fé” significa “confiança”, “boa-vontade” ou “otimismo”. Vou, então, tentar pôr os pingos no is e definir do que estou falando quando escrevo “fé” no meu texto. O sentido central desse termo, que está subjacente às expressões citadas acima, é o de convicção. Mas, se você olhar direito, vai perceber que essa convicção tem um componente importante: ela não é baseada em dados materiais objetivos, precisos. Imagine se um meteorologista afirmasse “tenho fé que o domingo vai ser ensolarado”! Ele não gozaria de muito crédito. Ou estaria gozando da nossa cara.
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Essa compreensão de fé como “convicção sem base material” é especialmente válida para aqueles que, em sua vida, costumam validar suas ideias e ações por argumentos sólidos mas que, confrontadas com o questionamento da religião, ao não encontrar u m modo de fundamentar sua crença, apelam para a chamada “fé”. Há também, como eu mencionei acima, aqueles que não creem, mas que dizem “crer na crença”, ou seja, têm “fé (confiança) na fé (crendice – dos outros)”.
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Para esses últimos, gostaria de explicar por que Richard Dawkins diz que a fé é a “mãe de todas as burcas”: somos ensinados a pensar que ter fé é algo positivo, mas ter fé signifgica simplesmente estar imbuído de uma crença que não se baseia em argumentos – estamos, na verdade, falando de um sentimento que pode impelir a fazer o bem, a ser gentil, a realizar grandes gestos de generosidade, mas também a condenar, oprimir e até matar, tendo como único respaldo uma ideia que vem do além e se transforma numa certeza individual que não admite negociação. Qualquer pessoa familiarizada com a história da humanidade vai perceber que as crenças fortes, o mais das vezes, serviram muito mais para atiçar do que para refrear nossos impulsos malignos. Como alguém já disse: “Sem a religião, pessoas boas fariam o bem e pessoas más fariam o mal. Somente a religião pode fazer uma pessoa boa praticar o mal.” Basta pensar nas Cruzadas, na Inquisição, nas burcas islâmicas, na excisão de clitóris de meninas de dois anos (prática corrente em muitas tribos africanas) e nos muitos atos de violência perpetrados contra mulheres, homossexuais, negros, crianças, “infiéis” diversos...
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Você pode também pegar esse exemplo de um homem que agiu inspirado por sua fé:

Convém lembrar que esse conceito de fé se aplica igualmente ao soldado nazista convencido da superioridade da raça ariana, ao oficial da KGB preocupado em defender o governo do proletariado ou ao general brasileiro dos anos 60-70 que trabalhava para garantir que nosso Brasil Varonil estivesse “em ordem”. É aquela história: fé cega... e faca amolada!

domingo, 29 de novembro de 2009

É HEXA!!!

Nunca falei sobre futebol nesse blog, e não devo voltar a falar tão cedo, mas depois de 17 anos com o grito de campeão entalado na garganta, finalmente posso dizer:
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CHUPA QUE É DE UVA!!!!!
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Me desculpem, mas com o Mengão campeão, je manque d'élégance.
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P.S.: Hoje vi na televisão um monte de repórteres comentando o fato de que o Andrade (o grande Andrade, diga-se de passagem) é um dos únicos treinadores negros do Brasil. Estavam dando bastante importância a esse fato, o que muito me surpreendeu: eu estava prestando atenção no excelente trabalho que ele realizou, e a cor da pele dele era a última coisa que me interessava. É sério, eu sinceramente nunca sequer pensei a frase "o Andrade é negro" - se bobear, ele podia ser verde que eu não teria reparado!

"Psychopathe", de Bénabar

Canção divertidíssima de Bénabar. Quer dizer, desde que você goste de humor negro... Não é um clipe oficial, mas vale a pena pra você escutar a música.
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Especialmente interessante, também, para observar contruções típicas do francês oral, como a supressão do "ne" da negação e do "il" de expressões como "il faut" ou "il y a". Sem contar no vocabulário e na famosa construção ne... que. Repare bem que, em y'a pas que toi qui as des problèmes, temos a negação dessa expressão, ou seja "não é só você que tem problemas". Se fosse y'a que toi qui as des problèmes, seria "só você tem problemas".
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Uma boa consulta a um dicionário on-line resolve a maioria das dificuldades. A letra, como sempre, se encontra no comentário. Se você, mesmo depois de pesquisar, continuar sem entender algo, não hesite deixar sua pergunta no comentário.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A expressão da restrição em francês

Uma das maiores pegadinhas para quem aprende francês é a construção NE + verbo + QUE, que tem cara de negação mas exprime, na realidade, a restrição, podendo ser traduzida como "só" ou "somente". Trata-se de uma tournure tão tipicamente francesa que os alunos raramente a assimilam, ainda que o professor volta e meia assinale sua importância e sua grande frequência de uso.
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Na verdade, o brasileiro que estuda francês costuma usar seulement para exprimir o que diria com nossa palavrinha . Ainda que não esteja incorreto, soa quase tão artificial quanto dizer apenas ou somente em uma conversa coloquial. Assim, quando um aluno diz “il y a seulement dix personnes en salle de classe” (pensando “só tem dez pessoas em sala de aula”), ele não comete nenhum erro gramatical, mas um francês provavelmente diria “il n’y a que dix personnes en salle de classe”. A questão é que nós, professores, normalmente não vamos interromper uma conversa para acertar uma frase que já está certa e que seria perfeitamente compreendida por um falante nativo (corrigir o aluno às vezes atrapalha o diálogo, e estamos interessados no que ele tem a dizer); com isso, essa maneira não tão natural de falar acaba se cristalizando.
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O grande problema, na verdade, nem é dizer seulement, por mais que soe um pouco deslocado, mas deixar de aprender a construção NE + verbo + QUE, de longe a mais usada. Dessa forma, para dizer “Só estou com 20 euros aqui no bolso”, o natural é mandar um “Je n’ai que 20 euros sur moi” ou, seguindo a tendência de engolir o “ne” na fala corriqueira, “J’ai que 20 € sur moi”. Ao que alguém poderia responder: “Que ça?!” (“Só isso?!)
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Para fazer a restrição sobre o sujeito da frase ou sobre o verbo, é preciso usar tournures que parecem meio complicadas mas que são bastante correntes, como “Il n’y a que lui qui puisse régler ce problème” ("Só ele pode resolver esse problema"). Como você deve estar imaginando, em francês coloquial, costuma sair “Y’a que lui...” Já para focar a restrição sobre um verbo, usa-se faire para ajudar. Assim, a melhor forma de dizer “Ele só trabalha” é “Il ne fait que travailler” (“Ele só faz trabalhar”), sem esquecer da tendência a omitir o ne da negação no francês oral.
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Enfim, é preciso lembrar que há outras maneiras importantes de exprimir a restrição em francês: juste, rien que, c’est tout e seul.
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Com esse último, uma particularidade interessante: ele concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere. Assim, repare o plural na citação de P. Hazard : “Seuls doivent compter les faits positifs” (“Só devem importar os fatos positivos”, ou “Somente os fatos concretos devem ser levados em conta”). Nossa expressão “Só Deus sabe” seria, em francês, “Dieu seul le sait”. Digo “seria” porque os franceses, comparados com os brasileiros, usam muito pouco essas expressões de origem católica – isso está ligado, segundo meu ponto de vista, ao fato de mais da metade dos franceses se declararem non-croyants (ateus ou agnósticos) e à cultura francesa de laicidade (religião é algo privado e ninguém precisa étaler suas convicções o tempo todo).
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Juste funciona como seulement, normalmente determinando substantivos. Assim, “Ele trabalha só três dias por semana” sairia “Il travaille juste trois jours par semaine” (ou “Il ne travaille que trois jours par semaine”). Juste também significa “justo” e “certo”. Por sinal, juste foi o ponto de partida para uma cena divertidíssima de Le dîner de cons. O personagem interpretado por Thierry Lhermitte tenta dizer a François Pignon que uma certa pessoa se chamava Juste Leblanc. Vendo a cena e a dificuldade de Pignon em captar a mensagem, você vai entender o que significa a palavra con, caso não saiba...



Rien que costuma causar estranheza, mas não é nenhum bicho de sete cabeças: “Rien que de penser à cette scène, j’ai envie de rire” (“Só de pensar nessa cena, fico com vontade de rir”). E a expressão “c’est tout” costuma ser usada no final da frase: “Je lis, c’est tout” (“Só estou lendo”).
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Viu? Só isso. OK, depois de um texto verborrágico como esse, você pode me olhar cinicamente e disparar: “Ah bon, c’est tout ?”

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ouïe sélective

L'ouïe sélective est un syndrome ontologique très répandu chez l'homme, et il demeure souvent méconnu auprès des femmes. Par exemple quand une femme dit :
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"Ecoute un peu ! C'est pas possible ce bordel ! Toi et moi, on va nettoyer tout ça ensemble. Regarde, toutes tes fringues traînent par terre et si on ne fait pas une lessive immédiatement, tu vas devoir te balader à poil. Tu me donnes un coup de main maintenant et quand je dis ça, je veux dire là tout de suite !"
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L'homme comprend :
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Ecoute un peu blablablabla toi et moi blablablabla ensemble blablablabla par terre blablablabla à poil blablablabla un coup blablablabla maintenant blablablabla là tout de suite !
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A ce jour aucune thérapie ne semble pouvoir soigner efficacement cette faiblesse auditive.
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De toute évidence les hommes concentrent leur attention sur l'essentiel uniquement. Quel esprit de synthèse prodigieux & exceptionnel !!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Qui de nous deux", de Mathieu Chedid - PROMOÇÃO BAIXE 2 CDs E GANHE MUITOS OUTROS!!

Nesse clip, vemos bem o universo de M, personagem criado pelo compositor Mathieu Chedid: a música envolvente, a guitarra rosa que o luthier Cyril Guérin criou para Billie (filha de M. Chedid) e o penteado sem igual. Você já deve ter percebido que eu gosto desse cara, né? A letra, como sempre, entontra-se nos comentários.
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P.S. 1: No antigo site oficial de Mathieu Chedid, estava escrito QUI2NOUS2 (que é o nome do disco também). Acontece que a preposição "de" e o numeral "deux" se pronunciam de modo quase idêntico (a diferença é que "deux" se fala com mais "força").

P.S. 2: Acabo de saber que Mathieu Chedid lançou o single Le roi des ombres e o álbum novo Mister Mystère. Além disso, tem um disco ao vivo, de 2005: -M- au Spectrum. E EU AINDA NÃO TENHO NENHUM DELES!!! Você não imagina o desespero que me bateu quando descobri todas essas novidades... Meu problema é que sou uma toupeira nessa coisa de télécharger (baixar) músicas. Assim sendo, lanço aqui uma promoção: quem baixar os discos para mim ganha um DVD inteiro com músicas ou filmes em francês. Quem se habilita?

sábado, 24 de outubro de 2009

Sem comentários

Este é o tipo de coisa que se leva a sério na Igreja Universal:

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Felizmente, algumas pessoas conseguem fazer arte a partir de algo tão monstruoso:
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A pronúncia e os acentos em francês - comemoração do 100° post

Se já fui chamado de "santo" por conta de meu texto Tempos verbais em francês e em português (que acabo de revisar e que, aliás, é o mais comentado do site), acho que, agora, vou virar padroeiro dos alunos de francês. Para "festejar" meu 100° post, vou explicar aquilo que muitos acham que não tem sentido nenhum: os acentos do francês. Espero que, depois de ler essa "pequena" explicação, você pare de achar que os agudos, graves e circunflexos têm apenas função decorativa.
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A primeira coisa a entender é que os acentos do francês têm, grosso modo, três funções:
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1) diferenciar palavras que têm a mesma pronúncia: mûr (maduro) e mur (muro, parede), sûr (seguro, certo) e sur (preposição com diversas traduções, entre as quais "sobre"), (onde) e ou (ou), à (preposição traduzida, o mais das vezes, como "a") e a (3ª p. sing. do verbo avoir no presente). Não me vêm à mente outros exemplos, mas é só pra você entender que a pronúncia não muda.
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2) marcar o desaparecimento de um s que existia antigamente. Essa função é exercida pelo acento circunflexo; assim, em francês antigo havia um s ou outras letras mais em palavras como hôpital, fête, tête, bête, maître, château, fenêtre, vêtement, goût, côté, hôtel, arrêter, croûte, intérêt, ancêtre, forêt e pâte, entre outros. O s desaparecido dá as caras em outras palavras da mesma família: festival, déforestation, veste, déguster, hospitalité, intéresser, arrestation, ancestral...
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3) indicar a pronúncia correta. Em pares como cote x côte ou votre x vôtre, o acento marca a pronúncia fechada do o. Mas é com a letra e que os acentos mostram realmente seu talento. Aqui, você tem que esquecer do português: em francês, o acento não marca a "sílaba tônica"; por sinal, a ideia de sílaba tônica nem convém muito ao francês - é bom pensar que, fora as sílabas que têm um e não acentuado no final, todas são tônicas. É isso que dá a entonação ligeiramente "achatada" do francês. Ao contrário do que muita gente pensa, portanto, não é correto dizer que, em francês, "acentua-se a última sílaba".
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Feita essa primeira ressalva, vamos lá: É dá um som fechado; dessa forma, café, bébé e téléphoner se pronunciam "cafê", "bêbê" e "têlêfonê". È e Ê dão normalmente um som aberto; é por isso que après, célèbre e tête se pronunciam "aprré", "cêlébrr" e "tét".
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Já para o E não acentuado, quando ele não for seguido de uma consoante na mesma sílaba ou de um x na sílaba seguinte, das duas uma: ou não tem som nenhum, ou se pronuncia com um som meio seco e ligeiramente arredondado que fica difícil de explicar por escrito sem usar afabeto fonético. (O símbolo desse som em alfabeto fonético é um "e" de cabeça para baixo.) Pense na pronúncia do e sublinhado na frase seguinte: Je regarde le train depuis le balcon. Se necessário, use um sintetizador de voz ou pratique no melhor site que conheço sobre fonética do francês.
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Se o E for seguido de uma consoante na mesma sílaba ou de um x na sílaba seguinte, ele poderá ser aberto, fechado ou nasal, de acordo com a letra que o acompanhar. Veja alguns exemplos: em regarder, o e da primeira sílaba não tem acento porque se pronuncia com aquele som que eu não consigo explicar direito, já em répéter, os acentos marcam que se pronuncia ê; na última sílaba, porém, o acento não é necessário, porque o r já implica essa pronúncia - é a mesma coisa em terrible ou em ferré. Em direction ou em merci, o som se abre, por causa das consoantes. Em bien e je viens ou em emmener, emballage, trente e vent, o som é nasal (mas lembre-se de que, para os dois primeiros, é um som nasal, e para os quatro últimos, um outro).
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Ficaria cansativo explicar que contextos determinam cada pronúncia, e acho que nem é tão importante - a prática e a transcrição fonética do dicionário (desde que for em alfabeto fonético internacional e não com remendos em alfabeto convencional) dão conta do recado.
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Na verdade, quero te dar a regrinha de ouro para você não errar mais os acentos. Lá vai:
NÃO SE ACENTUA A LETRA "E" SE HOUVER UMA CONSOANTE NA MESMA SÍLABA OU SE HOUVER UM "X" NA SÍLABA SEGUINTE.
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É por isso que não se acentua o e nasalizado ou o e seguido de consoantes duplas, por exemplo (por sinal, se você parar para pensar, vai perceber que o x é uma consoante dupla). Nesse sentido, a função do acento sobre a letra e é exatamente a de especificar a pronúncia, quando necessário, e não a de marcar a "sílaba forte", como em nossa língua. Se fosse assim, como é que você pronunciaria hétérogénéité? Se fossem cinco sílabas tônicas, no modelo do português, você ia parecer que está soluçando. Bom, na verdade, você deve estar é bocejando depois de um texto tão longo. Mas espero ter esclarecido suas dúvidas. Au revoir (sem acento) !

Conteúdo atualizado

Acabei de dar uma revisada num antigo texto do blog. Quer dar uma olhada? Clique aqui.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Por que os franceses são antiamericanos?

Por que os franceses detestam os americanos? Por que eles tratam mal quem fala inglês com eles? São perguntas que alguns alunos me fazem, e a resposta não poderia ser mais chata: de onde você tirou isso?!
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O fato é que o tal antiamericanismo francês não passa de um mito. Nossos amigos gauleses não são mais "antiamericanos" do que os brasileiros, e o fato de eles (exatamente como nós) terem uma série de críticas aos Estados Unidos não os leva a detestar as pessoas daquele país. País que, diga-se de passagem, os franceses admiram em muitos aspectos.
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Um observador mais atento perceberá, ao contrário, nos filmes, desenhos animados e no jornalismo made in USA, uma considerável veiculação de estereótipos negativos sobre a França e seus habitantes. Alguns alunos já mencionaram maluquices do tipo "os franceses odeiam os americanos porque a França perdeu sua importância internacional para os EUA e porque o prestígio da língua francesa está decaindo" ou "os franceses se ressentem do fato de terem sido salvos da ocupação alemã pelos soldados americanos". Na verdade, essas ideias são alienígenas ao modo de pensar da grande maioria dos franceses, mas elas fazem parte do imaginário americano, que nós acabamos por assimilar, devido ao forte contato que temos com os produtos da indústria cultural norte-americana. (Por favor, não vejam aí nenhuma bandeira "USA GO HOME" - sou fã de muitos produtos dessa indústria cultural norte-americana; mas, assim como você, também não engulo qualquer baboseira.)
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O link abaixo é o de um site (escrito em inglês) que aborda o tema com numerosos exemplos e uma explicação bem clara. Dá pra navegar durante um bom tempo e se livrar de algumas idées reçues.
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Em tempo: idée reçue, literalmente "ideia recebida", são aqueles pensamentos pré-fabricados que normalmente não têm muito a ver com a realidade, do tipo "paulistas trabalham mais do que cariocas" ou "inglês é mais fácil do que francês".

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

na terra do sol

para acender uma vela para deus e outra
para o diabo, basta um
palito de fósforo
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a luz dançarina das velas
já não me aquece nem me fascina
só ilumina minhas mãos
e minha pena
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fito sem susto meu rosto
- concluo que um dia tudo
se atrapalha e atropela no próprio oposto
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o palito seguro
produzo o atrito
tudo um tiro
no escuro

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Hommes X Femmes

Um pequeno guia com o que você NUNCA deve dizer à sua mulher. Lembrando: NÃO FUI EU QUE ESCREVI O TEXTO!
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Ma femme s'est assise sur le sofa près de moi pendant que je zappais avec la télécommande.
Elle m'a demandé : Qu'est-ce qu'il y a sur la télé ?
J'ai répondu : De la poussière.
C'est là que la dispute a commencé.
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Ma femme hésitait au sujet de ce qu'elle voulait pour notre prochain anniversaire.
Elle dit : Je veux quelque chose qui a du punch et qui passe de 0 à 130 en l'espace de 3 secondes.
Je lui ai acheté une balance.
C'est là que la dispute a commencé...
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La tondeuse à gazon est tombée en panne, ma femme n'arrêtait pas de me demander de la réparer. Mais, j'avais toujours autre chose à faire : ma voiture, la pêche, les copains...
Un jour, pour me culpabiliser, je l'ai trouvée assise sur la pelouse occupée à couper l'herbe avec des petits ciseaux de couture.
J'ai alors pris une brosse à dents et je lui ai dit : Quand tu auras fini de couper la pelouse, tu pourras balayer l'entrée ?
C'est là que la dispute a commencé...
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Ma femme se regardait dans un miroir. Elle n'était pas très contente de ce qu'elle voyait.
Elle me dit « Je me sens horrible ; j'ai l'air vieille, grosse et laide. J'ai vraiment besoin que tu me fasses un compliment sur ma personne! »
Je lui ai répondu : « Ta vision est excellente ! »
C'est là que la dispute a commencé...
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J'ai amené ma femme au restaurant. Je commande un steak saignant.
Le serveur me dit : « Vous n'avez pas peur de la vache folle? »
«Non, elle est capable de commander elle-même !»
C'est là que la dispute a commencé...
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Ma femme et moi étions à une réunion d'anciens de son école.
Il y avait un homme complètement saoul, buvant verre après verre.
Je demande à ma femme « Tu le connais? »
« Oui », dit-elle en soupirant « Nous sommes sortis ensemble. Il a commencé à boire quand nous nous sommes séparés. Il n'a jamais cessé depuis »
Je lui répondis « Qui aurait pu penser que l'on pouvait fêter ça si longtemps ?! »
C'est là que la dispute a commencé...
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En arrivant à la maison hier soir, ma femme me demande de la sortir dans un endroit cher.
Je l'ai amenée à la station-service.
C'est là que la dispute a commencé...
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Au supermarché, j'ai demandé à ma femme si nous pouvions prendre une caisse de bière à 25 euros. Elle me dit non, et, sans me demander mon avis, elle se prit un pot de crème revitalisante pour la peau à 15 euros.
Je lui fis remarquer que la caisse de bière m'aiderait plus à la trouver belle que son pot de crème.
C'est là que la dispute a commencé...
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L'autre jour, j'ai demandé à ma femme où elle désirait aller pour notre anniversaire.
Elle me répond : "Quelque part où ça fait longtemps que je ne suis pas allée »
Je lui ai offert d'aller dans la cuisine.
C'est là que la dispute a commencé...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Paris", de Camille Dalmais

No finalzinho do último post, escrevi que a palavra mais usada em francês para dizer "aposta" é pari, apesar de também se poder dizer mise (mise se refere mais diretamente a dinheiro). Os verbos correspondentes são miser e parier (esse último usado em frases como "aposto que ele vai chegar atrasado": Je parie qu'il va arriver en retard). Paris, de Camille Dalmais, brinca com as palavras Paris, pari e (tu) paries, que têm todas a mesma pronúncia. A letra, muito divertida, se encontra no comentário.
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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Mise au point, mise en place... o que é "mise"? Aprenda e participe!

Todo aluno de francês já empacou com alguma expressão contendo a palavra “mise”: mise au point, mise en page, mise en relief, mise en contexte, mise en bouteille, mise en place, mise en route, mise en situation... É uma lista potencialmente infinita, um verdadeiro desfile de mises!
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Mas que diabos quer dizer “mise”? Vou dar a explicação técnica, depois explico a explicação: trata-se do particípio passado do verbo mettre no feminino. Não ajudou muito? Então vamos lá: o verbo mettre significa colocar ou pôr – aproveito para dizer que esse acento não caiu no novo acordo ortográfico, pelamordedeus. Aliás, ele está presente no enunciado de muitos exercícios gramaticais (Mettez les phrases ci-dessous au passé composé), na forma de um imperativo que leva alguns alunos a esboçar um sorrisinho maroto.
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O particípio passado de mettre é mis (posto, colocado), que ganha um e no final para fazer cirurgia de mudança de gênero. Em português, o feminino do particípio passado pode designar o ato ou o efeito de realizar a ação expressa por um verbo: assim, “batida” é o ato de bater, “ferida” é a consequência de ferir e “finalizada” às vezes é sinônimo de “finalização”. O português, aliás, é rico em construções que reúnem o verbo “dar” e um particípio feminino: dar uma pisada, dar uma ligada, dar uma engordada...
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O francês, sendo uma língua latina, não é muito diferente: quer dizer que mise, além de significar “posta” ou “colocada” (la lettre a été mise dans une enveloppe rouge – a carta foi posta/colocada em um envelope vermelho), também pode ser compreendida como “o ato ou o efeito de pôr/colocar”. Basta, portanto, relacionar a expressão com mise à ideia de pôr ou colocar. Com efeito, para cada expressão (substantiva) com mise há uma expressão (verbal) equivalente com mettre.
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É assim que você tem que ver as coisas: entendendo como funciona, não decorando expressão por expressão. Se eu tentasse colocar uma lista de todas as construções com mise da língua francesa, você fecharia o blog ou arrancaria os cabelos. Como não tenho nenhum interesse em que você fique capilarmente desfavorecido, vou te dar apenas alguns exemplos pra você entender como funciona:
Mise au point : o ato de pôr no ponto – “acerto”, “ajuste” ou, se se tratar de fotografia, “focagem”;
Mise en relief : o ato de pôr em relevo – “destaque”;
Mise en bouteille : o ato de engarrafar – “envase” (“engarrafamento”, como na 3ª Ponte, se diz embouteillage ou bouchon);
Mise en place : o ato de colocar em um lugar – “implementação”, “instalação” (o contexto sempre ajuda: la mise en place d’une usine é “a instalação de uma fábrica”, la mise en place d’un système de gestion é “a implementação de um sistema administrativo”);
Mise en scène : o ato de encenar, de pôr em cena – “realização” (de um espetáculo), “encenação” (também no sentido pejorativo de “showzinho”, “teatro”);
Mise en route : o ato de colocar em rota, de pôr em funcionamento, em andamento – “execução”, “operacionalização” (mise en marche e mise en train são, a meu ver, praticamente sinônimos);
Mise en page : o ato de dispor (texto, elementos gráficos) em uma página – “diagramação”;
Mise en contexte e mise en situation : o ato de colocar no contexto, na situação – “contextualização”, “situacionalização”.
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Essa lista poderia se estender por, aproximadamente, 47 páginas, mas você já deve ter captado o espírito da coisa. Deve, também, ter percebido como as expressões com mise são soluções interessantes para evitar a formação dos detestáveis verbos em -izar e de seus filhotinhos monstrengos em -ização, que viraram mania em nosso idioma. A esse respeito, leia “Verbos novos e horríveis”, de Ricardo Freire. Esse texto me foi apresentado por uma amiga professora de português; o link que coloquei aqui está no excelente blog da professora e tradutora Sabrina Gledhill.
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É bom lembrar que mise também pode significar, entre outras coisas, “traje” ou “aposta” (afinal, você põe uma roupa e coloca dinheiro em jogo). Desse último sentido saiu o verbo miser, “apostar” (também se diz parierpari é a palavra mais usada para “aposta”).
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Mas, agora, vamos a uma mise en pratique: caso você conheça outras expressões com mise, ou assim que encontrar uma, coloque-a nos comentários deste post e proponha uma definição, ou uma tradução. Em seguida, volte a esse post (que será fácil de encontrar no marcador "Vocabulário do francês"): vou confirmar ou corrigir sua proposta, e você ainda pode conferir as contribuições de outros leitores.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Filmes sobre as guerras mundiais

Neste ano, a eclosão da Segunda Guerra Mundial completa 70 anos e, para não deixar a data passar em branco, abordei o assunto em minhas turmas de Básico 4. Trata-se de um modo de praticar os tempos verbais do passado mas, sobretudo, de lembrar desse evento traumático da história recente. É preciso não esquecer o que levou a humanidade a praticar aqueles crimes, para evitar que eles se repitam.
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Mas minha conversa com minhas turmas começou pela Primeira Guerra. Muitos consideram, na verdade, que não houve duas guerras, mas uma só: o cenário de 1918 era apenas o preparativo para uma nova onda conflitos, e foi o que ocorreu. Seja como for, gostaria de sugerir três filmes para entender melhor esse período: Un long dimanche de fiançailles, Monsieur Batignole e Bon voyage.
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O primeiro, cujo título em português é Eterno amor (muito parecido com Um longo domingo de noivado, tradução literal do original), conta a busca de Mathilde por seu noivo Manech, que é dado por morto durante a guerra (a primeira). Ela não aceita que ele tenha morrido, e tenta convecer a todos de que vai encontrá-lo. Ao contrário do que pode parecer, não é um filme de guerra nem um melodrama enjoado. A fotografia é muito bonita e ainda tem Audrey Tautou. Veja o trailer:
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O segundo filme, em nossa terra, foi batizado de Herói por acaso. É verdade que Senhor Batignole não seria o título mais atrativo do mundo, mas Herói por acaso soa tão sessão da tarde... Seja como for, o filme é ótimo. Passa-se na França ocupada pelos nazistas, onde o Sr. Batignole, dono de um açougue, começa a se beneficiar dos favores do noivo colaboracionista de sua filha, recebendo propriedades roubadas de seus vizinhos judeus pelos partidários de Hitler. Embora covarde, o Sr. Batignole tem princípios, e é isso que ele acaba por demonstrar ao longo do filme, que nos dá uma ideia da atmosfera da França nos anos 1940.
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O terceiro foi açucarado para nosso mercado de DVD com o nome A viagem do coração. OK, Boa viagem também não seria nenhuma maravilha, mas bom... O filme, que não é a água com açúcar que o nome em português deixa pensar, tem Gérard Depardieu e (ah!) Isabelle Adjani no elenco. Como cenário, a mesma França ocupada pelo III Reich. Confira o trailer:


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Para não deixar passar em branco, vamos explicar: por que se diz Seconde, e não Deuxième Guerre Mondiale? Em francês correto – não quer dizer que todos os franceses conheçam ou respeitem a regra –, quando há dois elementos, usa-se second (pronunciando o c como se fosse um g). Deuxième é usado quando há um terceiro.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

FRASE DA SEMANA

"Congresso Nacional, se gradear vira zoológico, se murar vira presídio, se cobrir com lona vira circo, se botar lanterna vermelha vira puteiro e se der a descarga não sobra ninguém".
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A frase está na seção deste sábado do humorista José Simão, na Folha de S. Paulo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Gravatinha ao molho de taioba

Qualquer pessoa que entenda um mínimo de cozinha sabe que esse papo de comida "chique" e comida "de pobre" é, muitas vezes, uma grande baboseira. Pratos populares podem ser tão complexos, interessantes e saborosos quanto criações de chefs europeus, ou até mais. Já comi uma buchada de bode que me pareceu uma obra de arte: por dentro de uma "bolsa " de bucho, costurada delicadamente, escondiam-se miúdos finamente picados e com um tempero delicioso.
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Por outro lado, alguns ingredientes para os quais muita gente torce o nariz são muito gostosos e podem ser usados de maneira surpreendente. Hoje, vou falar da taioba: é uma folha verde-escura muito consumida na roça, refogada mais ou menos como couve, acompanhando ovo frito e o indefectível feijão-com-arroz. Mas a taioba tem uma cremosidade toda especial. Foi a partir dessa característica que resolvi transformá-la em molho para massa. É um prato para uma refeição leve ou para acompanhar alguma carne ensopada. A receita é muito simples:

Ingredientes para 4 pessoas:
2 ou 3 maços grandes de taioba
1 cebola picada
2 dentes de alho picados
300 g de requeijão cremoso (pode ser catupiry, também)
Manteiga
Macarrão gravatinha
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Preparo:
Retire as três grandes nervuras de cada uma das folhas de taioba, enrole-as e corte-as grosseiramente. Esquente água com sal numa panela grande para preparar o macarrão. Numa panela média, esquente a manteiga e doure a cebola e o alho. Refogue em seguida a taioba, deixando murchar um pouco. Passe tudo para um processador ou um liquidificador e bata com o requeijão até obter uma mistura mais ou menos homogênea. Volte o creme para a panela, com o fogo apagado. Quando o macarrão estiver pronto, escorra-o, reservando um pouco da água de cozimento para diluir e aquecer o molho. (Você pode jogar um pouco da água quente no processador, para puxar o creme que tiver "colado" e adicioná-lo ao molho.) Acrescente o macarrão na panela, mexa bem e sirva.
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Como você percebe, a versão da foto não foi passada no processador, e eu não misturei o macarrão no molho. O preparo descrito acima é o da última vez que fiz: ficou muito mais gostoso, com um verde bem mais vivo. Infelizmente, eu não estava com minha máquina fotográfica.
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Variante: Pique bacon em cubos e leve-os ao fogo baixo para que eles fritem na própria gordura. Reserve-os. Siga todos os passos anteriormente explicados, como se a gordura do bacon fosse a manteiga. Espalhe os cubinhos de bacon sobre o molho na hora de servir.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tous les matins du monde

Acabo de assistir Tous les matins du monde (deve ser Todas as manhãs do mundo em português), que me foi passado por minha ex-aluna Danielle. O título, que à primeira vista soa estranho, vem do aforismo "Tous les matins du monde sont sans retour" ("todas as manhãs do mundo são sem volta").
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Trata-se de um filme de época que foi rodado em 1991 e que tem um traço do cinema francês que muita gente estranha: a grande quantidade de silêncios. Diferentemente das produções um tanto verborrágicas às quais estamos habituados, esse filme nos permite sentir melhor o ritmo do passado e, sobretudo, apreciar a magnífica interpretação dos atores. A reconstiuição histórica é impressionante (pelo menos, é o que parece para um leigo como eu), e ainda dá pra ter um gostinho da música daquela época. Não sei se dá para encontrar esse filme nas locadoras de Vitória, mas há vários trechos disponíveis no Youtube. Aqui segue o trailer:
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Para os alunos de francês, será particularmente interessante reparar em alguns traços seiscentistas: formas verbais como je puis (em vez de je peux), hoje reservada à língua erudita; o uso de père, e não papa, para dirigir-se ao pai; a negação feita apenas com o ne; e o emprego de vous entre pessoas próximas (pais e filhos, marido e mulher - tratamento extremamente incomum nos dias de hoje).
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Com relação a esse último ponto, é interessante perceber que as filhas de M. de Sainte-Colombe (o professor de viola) dirigem-se a ele usando a forma vous mas, em momentos de maior emoção, passam ao tu. Há um exemplo no trailer, quando Toinette (a ruiva, à esquerda) grita: Attendez, père, attends ! Essa oscilação tu-vous é rara hoje em dia, justamente porque o uso de vous é mais restrito do que no século 17.
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Se você não encontrar Tous ls matins du monde em sua locadora, alugue Molière, do qual já falei neste blog. É um filme completamente diferente (talvez mais ao gosto do público brasileiro) mas, como se passa no século 18, também é muito interessante do ponto de vista linguístico.
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P.S.: Eu, pessoalmente, sempre assisto um filme, sem preposição. É assim que 99% dos brasileiros (que constituem a maioria esmagadora dos falantes de português) falam espontaneamente, e eu não vejo problema nenhum nisso. Se os portugueses usam a preposição, isso é com eles: gosto muito de nossa maneira de falar.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Dicionário visual on-line: seus problemas acabaram!

Cansado de procurar uma palavra específica em francês e não encontrar no dicionário? Com a ajuda desse site, se você quiser saber como se diz, vamos lá... "aba de paletó", é só você entrar na parte Costume (paletó). Lá, você encontra uma imagem e o vocabulário com vários detalhes. Em baixo, você ainda encontra a definição de cada um dos termos.
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Agora vai uma dica para o uso desse site e de dicionários francês-francês. Muitas vezes, é interesante consultar a definição de algo que você já conhece, para aprender justamente a dar definições. A capacidade de explicar o que se quer dizer é essencial para contornar lacunas em seu vocabulário: você pode não conhecer a palavra exata, mas não passa aperto. Consultar a definição de uma palavra que você já sabe tem, ainda, a vantagem suplementar de que você pode encontrar, no texto explicativo, palavras que ainda não conhece, mas que consegue entender pelo contexto.

Direções em francês

Não tenho nenhuma turma de B3 nesse semestre, mas para aqueles que estão nesse nível agora ou para aqueles que quiserem dar uma rápida revisão no vocabulário de direção (itinerário), segue o link para um videozinho muito simpático. Tem legendas em inglês, mas nem precisa, porque é realmente bem fácil de entender. Lembre-se que nunca é demais revisar algo tão útil, e o vídeo é bem rápido.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

McDonald's de graça!!

Qualquer um que me conhece sabe que eu não nutro grande simpatia pelo McDonald's. Não tenho nada contra hambúrguer, sanduíche ou refrigerante, veja bem: de vez em quando preparo um aqui em casa que é uma delícia, com picles, alface crocante, tomate vermelhinho, mostarda, bacon e tudo o que a imaginação mandar. Mas as coisinhas do McDonald's (inclusive a batata) são muito ruinzinhas: parece tudo feito de isopor! Guardo bem a memória da última vez que comi aquela bagaça de BigMac, cerca de quinze anos atrás. (Poxa, tô ficando velho...)
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De qualquer forma, se você sabe apreciar o pão de pepelão com hambúrguer de plástico, molho de espuma de barbear e batatas fritas de isopor, confira as dicas desse francês para economizar no drive-thru do McDo.
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P.S.: Não me responsabilizo se você tentar. Lembre que é crime previsto em lei!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

CONCURSO "Vídeo da menininha e sua história abismal"

Depois de passar o mês de julho em "quase férias" e sem postar nada, retomo o blog com esse vídeo de uma menininha francesa contando uma história completamente "abismal", como diria o Marco Luque, do CQC. Quem me passou o link foi meu queridíssimo Luciano Bravo. Tem legendas em inglês, o que pode te ajudar ou não servir para absolutamente nada.
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O bacana, para quem estuda francês, é ver a maneira de falar das crianças e perceber que não há nenhuma desculpa para dizer que passé composé e imparfait são difíceis. Mas há pelo menos um momento em que ela troca o auxiliar (usando o avoir no lugar do être, ou vice-versa). E quem tiver estudado direitinho vai encontrar também um caso de passé simple. Aí você pergunta: passé simple não é um tempo "extinto" no francês oral? É. A explicação mais provável é que ele tenha aparecido na fala da garotinha porque sua mãe lê contos de fada para ela, e o passé simple é sempre usado nesse tipo de texto.
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Assim, vou lançar um concurso: vou dar um DVD com filmes franceses ou músicas francesas em mp3 para a primeira pessoa que deixar, nos comentários, a transcrição da frase em que a menininha troca o auxiliar e daquela em que aparece o passé simple. Tem que indicar o momento em que a frase ocorre (por exemplo, 3:18). É só a Polícia Federal não me prender antes e a pessoa vir buscar o prêmio no Centro de Línguas. Marcamos a data de entrega por e-mail: sandrodecott@gmail.com. Um abraço, boa sorte e divirta-se.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Traição no Texas

Quando eu tinha mais ou menos 16 anos, fiz essa dublagem com meu primo Juliano e meu grande amigo Wesley, improvisando uma gambiarra muto doida entre dois vídeos K7 e um Micro System, fazendo sonoplastia com papel celofane, isopor, garrafa pet e um colchão (sim, o barulho de lenha quebrando custou um buraco no colchão do meu tio).
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Infelizmente, no processo de digitalização, perdeu-se a cor (na descrição do vídeo no Youtube, o Wesley explica os detalhes técnicos).
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Assista até o fim dos créditos.
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Traição no Texas

terça-feira, 23 de junho de 2009

Diploma de jornalista

Um dos assuntos que vêm sendo mais debatidos nos últimos dias é o fim da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalismo. Você pode se perguntar por que diabos eu resolvi falar disso. Afinal, eu sou professor de francês. Mas a verdade é que, antes de começar meu curso de Letras, fiz dois anos de Jornalismo. O fato de eu ter desistido da profissão já fala por si, mas eu gostaria que você entendesse melhor a situação.
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Lembro-me, sem saudade, de alguns professores “morcegos” e de outros, como os de Economia e de Psicologia, que nos davam aula porque eram proibidos de ensinar os alunos de seus respectivos departamentos. Também não esqueço de nosso laboratório mal-equipado e da imensa facilidade com que alguns colegas pouco aplicados tiravam 10. Em meus pesadelos, ainda me recordo de quando fazíamos uma disciplina chamada “Expressão oral e escrita em jornalismo 1”: nossa “prática”, no laboratório, consistia em adaptar notas de jornal impresso para texto de TV. Foi a mesma coisa durante todo o semestre. E a professora nunca simpatizava com o que eu escrevia. Se fosse só eu não saber escrever para TV, até que vá, eu realmente acho que não dava pra coisa, mas o problema é que ela continuava em pé do meu lado, batia palmas para chamar a atenção de toda a turma e berrava: “Olha, gente, isso aqui não pode fazer, não: o colega de vocês escreveu portanto no texto dele”. Em meus tempos de escola primária, nunca fiquei de castigo ajoelhado em cima de grãos de milho nem usei orelhas de burro, mas acho que aqueles constrangimentos semanais me deram uma ideia precisa de qual deve ser a sensação.
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Evidentemente, o curso teve muitos pontos positivos, especialmente no que se refere às disciplinas não-específicas da área de jornalismo: psicologia, filosofia, antropologia, estética da arte... Mas gostei muito de fotografia e de teoria da comunicação, também. Por outro lado, depois que saí, o currículo do curso foi reformulado e o laboratório foi reequipado.
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De qualquer forma, o que mais me interessa é como mudei de lá para cá: durante aqueles meus primeiros semestres de Ufes, estava convicto de que era marxista-comunista e, se a exigência de diploma fosse revogada naquela época, tenho certeza de que eu praguejaria contra “o governo neoliberal que está lesando os direitos da classe jornalística para beneficiar o baronato da mídia”. (Acho que, se tivesse a oportunidade, também participaria de uma passeata ostentando bótons de “Fora FHC, fora FMI”.)
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Ontem, no entanto, na fila do supermercado, folheio a Veja e olho o editorial, que se posiciona a favor da medida do STF: segundo a revista, a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista era uma herança da ditadura militar (foi implementada em 1969, o que já é bastante significativo) e cerceava o direito à livre expressão. Convém lembrar que semelhante exigência não existe em países como Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Japão, Reino Unido, Suécia e Suíça. E que a não-obrigatoriedade do diploma não diminui necessariamente o valor de mercado da formação em jornalismo (mas certamente não estimula a criação de 200 faculdades de fundo de quintal).
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Na edição de hoje de A Gazeta, li um texto que tratava de uma manifestação de estudantes de jornalismo que, naturalmente, se opunham ao fim daquela reserva de mercado. O jornalista que assinava o texto não escondia uma certa simpatia pelos “protestos pelo fim da exigência de diploma”. Isso mesmo. Protestos pelo - e não contra o fim da exigência, como ele escreveu, corretamente, algumas linhas abaixo. Uma parte cruel de meu ser sussurrou: “São necessários quatro anos de estudo para escrever de modo desatento?”
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Afastei esse pensamento antipático, mas acabei me lembrando de meus tempos de estudante e concordei com a Veja, pensando com meus botões: “Quem sabe agora os jornais não vão melhorar?”

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A coisa mais linda do mundo


É ou não é a coisa mais linda do mundo, essa minha filha?

Pronomes repetitivos

O chamado método direto de ensino (no qual se fala apenas a língua-alvo, a L2) tem diversas vantagens: é mais dinâmico, mais desafiador e estimula o aluno a tentar entender o idioma estrangeiro em seus próprios termos, sem buscar comparações forçadas com a sua língua materna (L1). Isso ajuda a aprender a “pensar” em L2. No entanto, algumas comparações entre L1 e L2 podem ser bastante úteis, e um professor que quisesse excluir completamente da sala de aula a língua materna de seus alunos pode acabar complicando seu trabalho ou avançando menos do que gostaria.
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Gostaria, aqui, de abordar um pouco os pronomes franceses. O assunto pode parecer meio árido e, muitas vezes, é abordado apenas com exercícios mecânicos (ainda que, sinceramente, eu não veja muito como mudar isso). Mas o interessante é notar como o português brasileiro e o francês têm comportamentos completamente diferentes nesse ponto. Nós, brasileiros, costumamos deixar vazia a posição do pronome objeto direto:
– Você viu Jean-Pierre ontem? – Sim, eu vi. (– Est-ce que tu as vu Jean-Pierre hier ? – Oui, je l’ai vu.)
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“Eu vi”, em que o pronome objeto simplesmente desaparece, é uma alternativa encontrada por grande parte dos brasileiros para evitar a forma “certa” (“sim, eu o vi”), que soa artificial ou pedante, e a forma “eu vi ele”, que é estigmatizada e, portanto, freqüentemente evitada por falantes escolarizados. (Curiosamente, muitas das pessoas que debocham de quem diz “eu vi ele” dizem “eu vi ele chegando”, ainda que não percebam ou não admitam – é uma contradição engraçada, mas vamos deixar esse assunto para outro dia; digamos apenas que, cientificamente falando, não há nada de escandaloso em “eu vi ele”.)
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Em francês, por outro lado, o uso dos pronomes complemento de objeto direto (COD) é corriqueiro. Na língua falada, eles têm até tendência a se multiplicar “desnecessariamente” (digo entre aspas porque, se o falante repete algo, ele tem um motivo). Nas frases abaixo, observe a repetição do OD:
Je ne le connais pas, ton frère. (“Eu não o conheço, seu irmão.”)
Ces livres-là, tu peux les emprunter, si tu veux. (“Aqueles livros, você pode pegá-los emprestados, se quiser.”)
Tu la manges, ta soupe. (“Você a toma, sua sopa.” Frase com sentido imperativo que uma mãe poderia dirigir ao filho – menos ríspida do que Mange ta soupe !)
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Ter consciência dessa repetição pode ser decisivo para interpretar corretamente um enunciado como Simone, je la connais bien (literalmente “Simone, conheço-a bem”), em que “Simone” pode não ser um vocativo e sim um complemento de objeto direto deslocado de sua posição habitual e repetido pelo pronome. Ou seja, posso não estar falando com ela, mas falando dela (o contexto se encarrega de tirar qualquer dúvida).
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Em português coloquial, o complemento de objeto indireto (COI) de 3ª pessoa costuma ser retomado por um pronome precedido de preposição, em vez dos pronomes lhe, lhes (que, entre nós, só aparecem na escrita): “Eu fui jantar na casa de Julie e Pascal e levei uma garrafa de vinho para eles” (“lhes levei uma garrafa de vinho” sairia muito forçado em qualquer conversa). Em francês, lui e leur apareceriam tranquilamente, sem ares de linguagem rebuscada.
Je suis allé dîner chez Julie et Pascal et je leur ai apporté une bouteille de vin.
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Aliás, a tendência à redundância também se observa com os pronomes lui, leur.
Je lui ai dit à Céline qu’elle allait arriver en retard. (“Eu disse pra Céline que ela ia chegar atrasada.”)
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Na verdade, o francês oral / informal possui várias marcas redundantes como essa. Quando estudamos os pronoms toniques, infelizmente, raramente temos tempo de mostrar aos alunos como eles são importantes para esse tipo de repetição reiteradora. Vão alguns exemplos, seguidos de traduções literais:
Hans est allemand, mais Pierre, lui, il est français (“Hans é alemão, mas Pierre, ele, ele é francês.”)
Il est arrivé en retard, lui. (“Ele chegou atrasado, ele.”)
Je ne t’ai pas vu, toi. (“Eu não te vi, você.”)
J’irais bien à la plage, moi. (“Eu iria com prazer à praia, eu.”)
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Os famosos pronomes y e en também não escapam. Terror dos alunos do B3, esses pronomes, apresentados como recursos que permitem evitar repetições, aparecem frequentemente em construções que, montadas de outra forma, os dispensariam:
Les parfumeries, je n’y mets jamais les pieds sous peine d’une migraine aiguë (o que poderia ser dito de modo mais direto: Je ne mets jamais les pieds dans les parfumeries... “Eu nunca ponho os pés em uma perfumaria, para não sofrer de uma enxaqueca aguda”)
Le chocolat, j’en mange très peu, mais j’adore ça (ou Je mange très peu de chocolat... “Eu como muito pouco chocolate, mas eu adoro”)
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Evidentemente, tanto essas repetições com os pronomes y e en quanto aquelas com os pronomes COD ou COI ou com os pronoms toniques não são obrigatórias; na verdade, correspondem mais à necessidade que às vezes se tem, na fala, de destacar algum elemento, deslocando-o e repetindo-o. O mesmo fenômeno existe em português, mas com palavras diferentes.
Outro caso de construção aparentemente repetitiva, mas que é necessária, é o de pronomes como qui (“que”, “quem”) e (“onde”, “em que”). Em português, quem e onde podem ser usados em início de frase, sem antecedente:
Quem quiser ir ao museu hoje à tarde deve pegar o ingresso com Denise.”
Onde eu nasci, não tem guerra.”
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Em francês, qui e só podem ser usados em início de frase interrogativa: Qui est-ce ? (“Quem é?”); habitez-vous ? (“Onde você mora?”). Só em provérbios (linguagem antiga, portanto) encontramos qui em construções como a do português:
Qui ne dit mot consent (“Quem cala consente”), Qui ne risque rien n’a rien (“Quem não arrisca não petisca”), Qui se sent morveux se mouche (literalmente, “Quem se sentir encatarrado que assoe o nariz”: o nosso “Se a carapuça servir...”) e muitos outros.
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Os exemplos acima, para serem naturais em francês, deveriam ser:
Ceux qui veulent aller au musée cet après-midi doivent prendre le ticket d’entrée avec Denise. (Aqui você vê que os pronomes demonstrativos servem para muito mais coisa do que você pensava!)
Là où je suis né, il n’y a pas de guerre.
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Essa última frase, aliás, é tirada de uma música de Camille Dalmais: Là où je suis née (a letra está nos comentários). É meio paradinha, mas muito bonita, e permite ver, nos vídeos relacionados, outras canções dessa cantora, todas bem diferentes entre si e às vezes muito loucas. Recomendaria especialmente Paris, Ta douleur e Les ex. É com Camille que eu me despeço, pedindo desculpas se fui muito repetitivo.

P.S.: Às vezes, as repetições são ainda mais impressionantes, como no caso de uma canção do Paris Combo (Si mon amour), na qual encontramos Là où l'on cherche le bien, on y trouve le mal (“Lá onde se busca o bem, se encontra o mal”).

sábado, 23 de maio de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Lula com shiitake e geleia

Ingredientes (para duas pessoas):
4 lulas inteiras
Shiitake cortado em tiras
Salsão (aipo) cortado em rodelas
Geleia – de preferência, sem muito açúcar e à base de alguma fruta escura (morango, cassis, jabuticaba etc.)
Gengibre picado fino
Alho picado fino
Shoyu diluído em um pouco d’água
Uma colher de café de maisena (com s: lembre-se que Maizena, com z, é a grafia antiga, que permaneceu como marca registrada da Duryea)
Pimenta síria
Sal e pimenta-do-reino
¼ de um tablete de manteiga (50g)
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Brócolis cozido no vapor e pão para acompanhar
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Preparo
Trate as lulas: retire, com muito cuidado, a tinta, que se localiza naquelas duas bolinhas que parecem olhos. Retire da “cabeça” dela uma certa massa gordurosa, caso encontre (parece uma gelatina sem cor). Já encontrei surpresas curiosas, como um peixe inteiro ou até um caranguejinho qua a lula comeu. Lave e, em seguida, deslize a ponta do dedo por dentro da lula até achar uma espécie de cartilagem: é a “espinha”. Puxe-a delicadamente, para que ela não quebre. Se você não conseguir tirar tudo e ainda sobrar um pedaço, fique tranquilo, porque não espeta. Só vai fazer um “croc-croc” desagradável na hora de comer.
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Numa frigideira de fundo grosso, doure o alho e o gengibre em metade da manteiga e refogue o shiitake com o salsão. Reserve. Tempere as lulas com o sal e as pimentas e, na mesma frigideira, passe-as no restante da manteiga até que amaciem (a lula costuma ser bem mais macia do que o polvo, e o cozimento excessivo deixa a carne dura).
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Acenda o forno a 200° C. Com uma colher pequena e muita delicadeza, recheie as lulas com o refogado de shiitake e salsão. Unte um refratário com manteiga ou azeite e forre-o com pedaços de brócolis. Disponha as lulas por cima e leve ao forno para aquecer (5 minutos no máximo).
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Volte à frigideira para fazer o molho: misture o shoyu com a maisena e leve ao fogo, mexendo até começar a engrossar. Acrescente a geleia e misture bem. Sirva imediatamente, acompanhado de pão (que serve para puxar o molho do prato, “técnica” francesa chamada tremper son pain).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Jô Soares entrevista Michel Legrand

Entrevista com o grande Michel Legrand, grande compositor de trilhas sonoras para o cinema e jazzista de mão cheia, com suas marcantes sobrancelhas de lagarta cabeluda. Dá para encontrar coletâneas dele no Brasil. Na entrevista, você talvez perceberá que algumas brincadeiras que M. Legrand faz não puderam ser traduzidas.
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Numa delas, talvez a mais criativa, ele explica como se apaixonou por Catherine, sua mulher. Ele começa com On s'est beaucoup plu ("gostamos muito um do outro") e, mais adiante, lança À l'averse. É preciso entender que, em francês, a forma plu é o participe passé dos verbos plaire (agradar) e pleuvoir (chover). Assim, on s'est plu significa, ao mesmo tempo, "a gente agradou um ao outro" ou "a gente se choveu". Essa última frase é, naturalmente, agramatical, mas aí é que está a graça, porque averse é uma chuva forte que vem de repente, como o amor de Legrand por sua mulher. Fica mais divertido se lembrarmos que uma das composições mais conhecidas de M. Legrand é o tema de Les parapluies de Cherbourg ("Os guarda-chuvas do amor" - Chergourg, na verdade, é uma cidade da Normandia, região com altos índices pluviométricos).
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Numa outra, logo no início, quando Jô brinca com as palavras harpiste (harpista) e harpie (harpia, ave de rapina muito grande e voraz), Legrand continua com artiste harpiste hors-piste (artista harpista fora da pista - como o ski mais radical), que nem foi traduzida.
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Abertura (escute com fones de ouvido para apreciar melhor)
1ª parte


2ª parte
Quando terminar de ver a entrevista, aproveite para escutar algumas músicas nos vídeos relacionados que vão aparecer.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Minha religião

Alguns povos cultuam seus ancestrais. É o que eu faço com minha mãe e meu avô: pensar neles me ajuda a viver. Na foto, minha mãe e minha filha Lili.

Ateu militante

Recentemente, li uma matéria da revista Época sobre uma pesquisa científica que supostamente provaria que o ser humano tem uma inclinação natural a acreditar em uma divindade. O biólogo britânico Richard Dawkins, a única voz dissonante num texto claramente pró-religião, foi apresentado da seguinte maneira: “cientista pop e ‘ateu militante’”. Repare que a expressão ateu militante estava, no original, entre irônicas aspas.
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A ideia por trás do debochinho era, provavelmente, que defender publicamente o ateísmo, como faz Dawkins, é um contra-senso, que seria um proselitismo igual ao das religiões. Em reação ao crescente movimento de autoafirmação dos ateus, alguns soltam a pérola: o ateísmo é uma religião como as outras. Numa de minhas andanças pela Internet, encontrei essa resposta magistral: “afirmar que o ateísmo é uma religião é o mesmo que dizer que calvície é uma cor de cabelo ou que sedentarismo é um esporte”. Na mosca!
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Ateu militante (sem aspas, uma vez que me considero um) é aquele que luta contra o preconceito de que são vítimas os que não compartilham das crenças dominantes e que considera importante defender o Estado laico das investidas dos grupos religiosos.
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O primeiro fato a entender é que existe discriminação contra ateus. As pessoas sequer se dão conta disso, de tão normais que são, em nossa sociedade, ideias curiosas como “uma pessoa que não acredita em Deus não tem senso moral” ou francamente absurdas do tipo “se você não tem medo de ir para o inferno, o que te impede de matar alguém?” O pior é quando explicam algum crime hediondo dizendo que o sujeito "não tem Deus no coração".
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Sinceramente, você acha que um político abertamente ateu ganharia uma eleição em nosso Brasil varonil? Nos EUA, onde o lobby religioso é incrivelmente poderoso, a constituição de alguns Estados estabelece que não se pode aceitar como testemunha em processos judiciais alguém que não acredita em algum ser superior ou em um estado de punições e recompensas após a morte. O Dr. Dráuzio Varella conta, aqui, a reação de muitas pessoas ao descobrirem que ele é ateu.
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Segundo: sem um Estado verdadeiramente laico, não há democracia. Deixo, aqui, de lutar contra o preconceito para lutar apenas pelo respeito à constituição. O avanço dos grupos religiosos na política leva a bizarrices como o caso de algumas escolas públicas americanas que ensinam o criacionismo ao lado da teoria da evolução ou até no lugar dela. Para um caso extremo, basta citar o Irã. A questão é importante e menos complicada do que gostam de pintar: a oposição de muitos grupos cristãos ao desenvolvimento de pesquisas com células-tronco embrionárias pode, no futuro, fazer com que eu (ou você) fique privado de um tratamento médico adequado. Que poderia ter sido desenvolvido caso as pesquisas não tivessem sido barradas por conta de dogmas que não se justificam aos olhos da lei. (Hoje, até onde sei, as pesquisas estão liberadas, mas tenho certeza de que a galerinha do “pró-vida” não vai deixar barato.)
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Poderia mencionar que nenhum ateu entra em ônibus para fazer pregação nem diz que as pessoas que creem vão arder nas chamas do inferno. Poderia dizer que o fato de acreditar que a vida é uma só me inspira a basear minha vida numa moralidade racional e a buscar o que é verdadeiramente essencial na vida: amor e amizade. Poderia explicar diversos efeitos negativos dos dogmas religiosos (guerras, intolerância, discriminação, violência simbólica...).
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Mas vai que você me diz que estou parecendo um crente tentando arrebanhar fiéis?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Feijoada sem frescura

A feijoada à la Sandrrô, explicada numa verdadeira superprodução. Lembre-se que a feijoada nasceu na senzala: era o feijão que os escravos comiam, enriquecido com farinha e algumas partes consideradas "menos nobres" do porco: pé, orelha e rabo. Linguiça e bacon foram acrescentados bem mais tarde, quando o prato passou a frequentar mesas mais abastadas.

O conceito de cortes "nobres" (que seriam as partes mais carnudas e mais macias do animal) é arbitrário e as pessoas que torcem o nariz para algumas partes do boi ou do porco deixam claro que têm um paladar limitado e que não entendem de cozinha. É um erro, por exemplo, pensar que filé mignon é melhor do que músculo ou bucho (ok, "dobradinha", se você prefere). O filé é, evidentemente, o corte ideal para fazer bife (que, para valer a pena, deve ser grosso e malpassado); músculo é melhor para fazer ensopado; e bucho é muito gostoso. Se você nunca comeu, não sabe o que está perdendo; se já comeu e não gostou, azar o seu de ser fresco!

No caso da feijoada, o rabo, a orelha e o pé conferem ao prato seu aroma característico. Além disso, a "gelatina" do pé, quando bem cozida, derrete na boca e dá ao caldo uma untuosidade e um aveludado maravilhosos. É isso aí: feijoada é coisa muito fina, meu irmão. Não fica devendo nada à paella ou a qualquer prato tradicional da cozinha francesa.

Resumindo a história: feijoada que só tem bacon, linguiça e carne seca não passa de feijão enfeitado!

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

"As aventuras de Molière" (e algumas observações sobre vocabulário)

Ontem, seguindo a recomendação de meu amigo Francisco, me diverti muito com “As aventuras de Molière” (Molière). O filme, protagonizado por Romain Duris (que também fez Albergue espanhol e Arsène Lupin), mostra o “pai” do teatro francês passar por diversos apuros e muitas situações hilariantes depois que um burguês o livra da cadeia, onde ele fora parar por causa das dívidas de sua trupe. O objetivo de seu salvador, um homem rico, porém simplório, é seduzir uma jovem viúva da corte (interpretada por Ludivine Sagnier, que participou de 8 mulheres).
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Aqui você confere o trailer:


Na história, provavelmente fictícia, vemos qual teria sido a inspiração para dois dos maiores textos de Molière: Tartuffe e Le bourgeois gentilhomme. Aqueles que tiverem mais conhecimento de francês poderão, também, saborear um pouco a linguagem do século 17. Seguem alguns exemplos:
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Sieur, em vez de monsieur.
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Fort bien, forma hoje erudita de très bien.
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Présent (presente, no sentido de “presente de aniversário”), e não cadeauprésent com esse sentido é, atualmente, um termo literário.
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Baiser no sentido de “beijar”. É bom não confundir: ao passo que un baiser (substantivo masculino) realmente se traduz como “um beijo”, o verbo baiser (transitivo direto ou intransitivo) significa... como dizê-lo de maneira elegante? “Ter uma relação sexual com”. E não é um termo bonitinho como faire l’amour. Na verdade, faz parte de um grupo que inclui outros verbos que chocam ouvidos sensíveis, como niquer, enfiler, enculer, miser ou tringler. A evolução do termo baiser é explicada nesse pequeno vídeo de Bernard Cerquiglini (Merci professeur, no site da TV5). Já na época de Molière, como nos explica Cerquiglini, baiser tinha dois sentidos, o que era evidentemente fonte de humor.
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Para “beijar”, diz-se embrasser ou donner un bisou, mas baiser é usado quando se trata de beijar uma parte do corpo (estou pensando na mão ou na testa!) – Elle m’a baisé la main – embora me pareça preferível dizer Elle m’a donné un bisou sur la main, para evitar mal-entendidos. O substantivo masculino baisemain designa, assim, o gesto atualmente um pouco raro de beijar a mão de alguém, mas o substantivo feminino baise corresponde a algo que não se pode fazer em público. Faire la bise (bise e não baise, cuidado!) é dar aquele cumprimento dos três beijinhos (que podem ser dois, três ou até quatro na França, sendo que não se costuma necessariamente abraçar a pessoa). Um bisou é um “beijinho”, e se enviamos uma carta a uma pessoa íntima, podemos concluir com Bisous ou Je t’embrasse.
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Para “abraçar” (que, na época de Molière, se dizia embrasser), temos serrer (ou serrer dans les bras) e étreindre (de onde sai o substantivo feminino étreinte, “abraço” – accolade é um termo que nunca vi um francês usar e que me parece um tanto antigo). Mas se você escrever uma carta amigável e tiver vontade de encontrar um equivalente ao nosso “Um abraço”, não caia na tentação de dizer Je t’étreins ou Je te serre. A pessoa pode achar que se trata de assédio sexual! Contente-se com algo menos “colante”, como Amitiés, Cordialement, Bien à vous ou simplesmente... À bientôt.

François Ozon (1): "Oito mulheres"

Já assisti três longas de François Ozon, cineasta francês de 41 anos. O que mais me chamou a atenção foi como cada um desses filmes era muito diferente do outro. Sua filmografia, no entanto, conta com muitos títulos que ainda não tive o prazer de ver. Abaixo, coloco a lista dos longas-metragens:
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1998 : Sitcom
1998 : Les Amants criminels
1999 : Gouttes d'eau sur pierres brûlantes
2000 : Sous le sable
2001 : Huit Femmes
2003 : Swimming Pool
2004 : 5×2 (lê-se “Cinq sur deux”)
2005 : Le Temps qui reste
2006 : Angel
2009 : Ricky
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Hoje, gostaria de apresentar “8 mulheres” (Huit femmes), mistura de comédia, suspense e musical (as atrizes interpretam clássicos da música francesa). Confira o trailer. A narração em francês é bastante clara, mas, se você tiver alguma dificuldade para entender, é só conferir as legendas:


Aqui você confere um trailer mais completo (infelizmente, a incorporação estava desativada):
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Trata-se de uma adaptação de uma peça de teatro. Na história, que se passa nos anos 1950, um homem é encontrado morto em sua casa na véspera de Natal, e as suspeitas são oito mulheres (entre elas, a ex-mulher, a filha e a empregada, por exemplo). Toda a ação se passa dentro da casa, e o final é surpreendente. Depois de assistir o filme, veja mais explicações no Wikipédia:
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Abaixo, você confere duas das músicas do filme (as letras estão no comentário).
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Pile ou face (Cara ou coroa), com Emmanuelle Béart:


Papa t’es plus dans le coup (Papai, cê tá por fora), com Ludivine Sagnier:
P.S.: Repito que assisti o filme, não ao filme. Já expliquei por que em outra ocasião.