quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

DOSSIERS (TODOS OS NÍVEIS)

Caro aluno do CLC-UFES:
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Seguem os links para baixar os dossiers (material complementar) de todos os níveis. Baixe, imprima e encaderne apenas o referente ao seu nível: como se trata de um material em constante aperfeiçoamento, ele pode ser alterado para o semestre que vem. Caso encontre algum problema ou tenha dificuldade, por favor deixe um comentário.
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ATENÇÃO: Para visualizar corretamente as transcrições fonéticas dos dossiers do Básico 1 e do Básico 2, é preciso instalar a fonte do alfabeto fonético internacional. Pode ficar tranquilo, não tem vírus (o site de hospedagem de arquivos tem verificação automática). O link para baixar a fonte (arquivo levíssimo) está abaixo:
O ideal é você salvar a fonte na Área de trabalho (Desktop) e instalá-la seguindo as instruções da Microsoft (clique aqui) ou consultar o sobrinho faz-tudo de plantão. Não se esqueça de que você deve imprimir o arquivo no computador em que a fonte está instalada!
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ATENÇÃO 2: Nos semestres passados, tivemos problemas com as copiadoras, o que nos obrigou a reimprimir todo o material. Assim, por souci écologique, não disponibilizaremos cópias impressas para xerox. A única maneira de obter os dossiers será realmente por download.
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Básico 3:
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Básico 4:
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Intermediário 1:
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Intermediário 2:
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Avançado 1:
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Avançado 2:
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P.S.: Um pouquinho de vocabulário de informática: baixar um arquivo (ou fazer o download) se diz télécharger. Arquivo de computador se chama fichier (palavra masculina), e não archive (palavra feminina), como os arquivos físicos. Visualizar um arquivo é visualiser (com s mesmo) ou afficher (verbo que, para ser mais preciso, significa "mostrar", "exibir"). Link é lien ("elo"). Fonte (tipo de letra) é police de caratère, e não source (fonte de água, de informação etc.) ou fontaine (bebedouro). E fonte, em francês, significa "ferro fundido", portanto nada de tentar inventar palavras!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

a mim mesmo

após tanto tatear
aqui e acolá
na busca de algo que não
está lá
cá estou caído
apóstata da fé que nunca tive
mas é aposta que quase fiz
cá estou cá ídolo meu
apóstolo de um não
que é mais que unção
mais que um simulacro
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é a mim mesmo que falo
é amém esmo que falho
e em meu ato fálico
a repetição imperfeita
de uma mente que não
não há seita mentiras doces
não há posta na mesa nenhuma eucaristia
não há teu nome em lista alguma
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não aposto no após
do pó ao pós, enfim sós
apenas nós
que se desatarão
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é a mim mesmo que falo

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Multiculturalismo e burca

Etnocentrismo é algo particularmente imbecil. Mas alguns dos desdobramentos do multiculturalismo (o que é isso?) são meio perigosos: por exemplo, quando alguns intelectuais ocidentais, preocupados em ser politicamente corretos, adotam um relativismo tão extremado que se aproxima do niilismo. Ou, ainda, nos países do chamado 1º mundo, quando certos grupos de imigrantes, dizendo-se marginalizados e oprimidos, querem o direito de quase impor sua cultura ao país em que se encontram. É um pouco o que acontece na França com alguns muçulmanos: na esteira da polêmica que se seguiu à lei que proibia o porte de símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas, houve um movimento de mulheres que reivindicavam o "direito" de usar a burca.
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Abaixo, você confere um trecho da intervenção de uma representante muçulmana em uma discussão realizada no Québec sobre o uso do véu islâmico (voile islamique) em escolas públicas e na função pública. O título dado ao vídeo (Doctorat d'honneur en langue de bois) diz muito sobre a posição da pessoa que o postou: traduzido, dá algo como "Doutorado honorário em embromação". Julgue por você mesmo:

Abaixo, transcrevo um texto da escritora e filósofa Élisabeth Badinter (para saber mais sobre essa autora, clique aqui) sobre as mulheres que, na França, usam voluntariamente a burca. (OK, véu e burca não são a mesma coisa, há uma diferença importante, mas também há semelhanças que não devem ser desprezadas.)
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Lettre à celles qui portent volontairement la burqa
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Après que les plus hautes autorités religieuses musulmanes ont déclaré que les vêtements qui couvrent la totalité du corps et du visage ne relèvent pas du commandement religieux mais de la tradition, wahhabite (Arabie Saoudite) pour l'un, pachtoune (Afghanistan, Pakistan) pour l'autre, allez-vous continuer à cacher l'intégralité de votre visage ?
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Ainsi dissimulée au regard d'autrui, vous devez bien vous rendre compte que vous suscitez la défiance et la peur, des enfants comme des adultes.
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Sommes-nous à ce point méprisables et impurs à vos yeux pour que vous vous nous refusiez tout contact, toute relation, et jusqu'à la connivence d'un sourire ?
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Dans une démocratie moderne, où l'on tente d'instaurer transparence et egalité des sexes, vous nous signifiez brutalement que tout ceci n'est pas votre affaire, que les relations avec les autres ne vous concernent pas et que nos combats ne sont pas les vôtres.
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Alors je m'interroge : pourquoi ne pas gagner les terres saoudiennes ou afghanes où nul ne vous demandera de montrer votre visage, où vos filles seront voilées à leur tour, où votre époux pourra être polygame et vous répudier quand bon lui semble ?
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En vérité, vous utilisez les libertés démocratiques pour les retourner contre la démocratie. Subversion, provocation ou ignorance, le scandale est moins l'offense de votre rejet que la gifle que vous adressez à toutes vos soeurs opprimées qui, elles, risquent la mort pour jouir enfin des libertés que vous méprisez.
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C'est aujourd'hui votre choix, mais qui sait si demain vous ne serez pas heureuse de pouvoir en changer.
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Elles ne le peuvent pas ... Pensez-y !
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Elisabeth Badinter

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Espero que você não considere o argumento de 5º parágrafo como um "muçulmanos, go home". Pelo menos, não é assim que eu vejo a coisa. Seja como for, confira abaixo a participação de Élisabeth Badinter num documentário chamado Qu’est-ce qu’être Français ?, de 2006.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Nombre, numéro & chiffre

Afinal de contas, qual é a diferença entre chiffre, nombre e numéro? Em português, “número” dá conta de quase todos os sentidos dessas palavrinhas que aparecem para os alunos desde o início do curso, mas cujas diferenças nem sempre são nítidas.
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É coisa simples: desfeito o engano inicial, depois que você se dá conta de que chiffre não tem nada a ver com bois e vacas, e sim com “cifra”, fica fácil compreender por que esse é o termo usado para se referir a estatísticas e dados oficiais – como quando a gente diz “os números do desemprego”: les chiffres du chômage, como no desenho abaixo. Aliás, essa coisa de estatísticas dá o que falar na França (confira aqui). O chiffre d’affaires de uma empresa é o seu faturamento global, o dinheiro que ela movimenta. Chiffre também significa “algarismo”: chiffres arabes (1, 2, 3...) e chiffres romains (I, II, III...). Atenção: chiffre, ao contrário de “cifra”, é masculino. (E não tem aquele seu conhecido que, todo santo fim de semana, larga a mulher em casa para se juntar a um bando de peludos num pé-sujo e passar horas reclamando da escalação do Dunga? O que pode vir a enfeitar a testa dele se chama cornes; e esse mesmo sujeito será chamado de mari trompé – “marido enganado” – ou, pra ficar no popular, cocu – “corno”.)
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A distinção entre nombre e numéro costuma pegar muita gente, mas aí vai um macete infalível: nombre é sinônimo de quantité (aliás, é muito mais usado que quantité). É por isso que dizemos le nombre d’habitants d’une ville, un grand nombre de personnes, le nombre de pages d’un livre e por aí vai. Se você puder colocar quantité no lugar, a palavra certa é nombre. O que significa que Quel est ton nombre de téléphone ? é uma pergunta tão esquisita quanto Quel est ta quantité de téléphone ? No caso de números atribuídos a objetos, documentos, páginas, a palavra certa é numéro (que você vai me fazer o favor de pronunciar marcando bem todas as sílabas: nümêrrô): le numéro de téléphone, de la page, de la salle, de la carte d’identité... Também diremos le numéro 1 250 du Nouvel Observateur (ou seja, a edição 1.250 dessa revista) e le numéro du trapéziste (a apresentação desse artista).
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Mas fique esperto: nem sempre uma pessoa interessada em te ligar mais tarde vai usar esse vocabulário de Básico 1 pra descolar seu contato: não se surpreenda se você ouvir um C’est quoi ton 06 ? (a gíria para celular é zéro-six porque, na França, é assim que começa o número da maioria das linhas de telefonia móvel).
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P.S.: Nada contra botequins e mesas-redondas animadas por cervejas quadradas...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quem te viu, quem te vê, Globinho...

Desde criança, sou apaixonado por carnaval, especialmente pelo desfile das Escolas de Samba do Rio, que sempre acompanhei pela televisão. Aprendi muita coisa com as explicações sobre as fantasias e carros alegóricos, que parecem um barroco viajandão, mas envolvem um trabalho de pesquisa fantástico. Ao contrário do que afirmam alguns chatos que conheço, um desfile pode ser uma verdadeira aula de arte e história.
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Mas, hoje em dia, não consigo assistir à transmissão da Globo sem encher o saco de todo mundo com reclamações que ela conhece de outros carnavais. É que, nos idos das décadas de 80 e 90, os apresentadores contavam histórias e curiosidades que nos permitiam entender da comissão de frente à Velha Guarda. Parece um clichê ser saudosista, mas nesse caso é mais do que nostalgia. Qualquer pessoa que tenha o hábito de acompanhar o Carnaval carioca percebe a evolução do espetáculo, o modo como ele ganhou em riqueza e complexidade artística (ainda que os bons sambas-enredo tenham se tornado mais raros). Mas percebe, também, que o plim-plim anda atravessando o samba há um bom tempo.
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Parece má-vontade ou não sei o quê: é um tal de fazer tomada aérea o tempo todo, de passar a jato pelas alas, de quase estourar champanhe quando dá uma zica num carro alegórico, se preocupando mais em mostrar 500 vezes o mesmo problema e passar em branco o que mais interessa... A impressão é que o jornalismo global tem medo de que o espectador troque de canal ou se atire pela janela caso os apresentadores façam menção a algo de ligeiramente sério ou teçam algum comentário mais relevante ou menos superficial.
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Isso sem falar que a cobertura provavelmente tem fobia a ser tachada de vulgar, e na noite de ontem algumas rainhas de bateria, por exemplo, foram filmadas durante milésimos de segundo. Acho que já deixei bem claro que Carnaval é muito mais do que mulher bonita, mas (acreditem em mim) beleza não é a única coisa que a gente gosta de observar em uma passista: samba no pé tem mais encanto do que uma bunda de fora. (OK, tanto quanto – xiii... minha namorada vai me matar!) Mas, na avalanche neo-puritana dos dias que correm, tudo é pedofilia, machismo e vai saber o que mais.
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Seja como for, nosso carnaval continua, sem sombra de dúvida, o maior espetáculo da Terra. Então vou parar de me queixar porque a quarta-feira de cinzas é muito traiçoeira e despenca na nossa cabeça de uma hora pra outra... e hoje ainda tem muito samba pra rolar!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O NOME DO JOGO, de Will Eisner

No ano passado, a grande mídia criou um auê do cão sobre alguns títulos que constavam no acervo de bibliotecas de escolas públicas. O primeiro “escândalo” foi a coletânea de quadrinhos Dez na área, um na banheira e ninguém no gol, de Allan Sieber, Caco Galhardo e outros, uma obra destinada a adolescentes e adultos que tinha sido indicada, por descuido, para alunos da terceira série. (Ou terceiro ano, ou quarta série do novo Ensino Fundamental, sei lá, essas coisas mudam de nome todo dia... e os resultados só pioram.) Realmente, por se tratar de quadrinhos que contêm piadas “cabeludas” e palavrões, talvez não fosse o livro mais indicado para meninos de 9 anos. O próprio Caco Galhardo comentou isso, declarando que sequer fora informado do contrato firmado entre a editora Via Lettera e o governo José Serra e que não recebeu um tostão. (Vale lembrar que o secretário de educação de São Paulo é o nada simpático Paulo Renato, aquele mesmo que estava sucateando as universidades federais e as escolas técnicas, mas isso é assunto para outro dia.)
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Mas como a mídia precisa de lenha pra fogueira, ainda mais quando queimar os outros rende audiência, formou-se um discurso equivocado que partia de premissas toscas como a de que “quadrinhos são feitos para crianças”. Outras obras consideradas impróprias para os estudantes, entre as quais muitos quadrinhos, foram sendo “descobertas”, motivando generalizações apressadas sobre esse tipo de linguagem e uma avalanche moralista de críticos que muitas vezes não ouviam o lado dos autores. O errado, pareciam dizer alguns, eram os quadrinhos, vulgares e de mau gosto. Felizmente, a maré virou e o foco da discussão acabou recaindo onde deveria: no descaso do governo do Estado de SP que, como Paulo Renato mesmo foi obrigado a admitir, não havia encarregado especialistas da seleção das obras.
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Fiz essa introdução um tanto longa para mostrar em que contexto se insere minha resenha de O nome do jogo, quadrinhos do mestre Will Eisner apedrejados pelos conservadores de plantão. O Ministério da Educação havia indicado o livro para alunos do Ensino Médio, mas ele acabou indo parar nas mãos de estudantes de sexta série. Mais um erro (esse, do Governo Federal), ainda que menos grave. Porém, na roda-viva que se seguiu ao “escândalo” de Dez na área..., foi colocado no mesmo balaio: seria uma obra chula, recheada de cenas de violência e sexo, e até insinuação de estupro! Mas vamos pôr os pingos no is: há uma diferença considerável entre uma criança de 9 anos e um moleque de 12; não há nenhuma imagem explícita de sexo no álbum. Aliás, esse está longe de ser o foco da obra. O nome do jogo, na verdade, é uma espécie de ensaio sociológico que mostra como três famílias de imigrantes judeus perseguiram o “sonho americano”, usando o casamento como forma de ascensão social. Certamente, o tipo de livro que contribui tanto para o amadurecimento dos estudantes quanto uma obra de Machado de Assis. E que não contém nada que não apareça na novela das nove.
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O que fica dessa celeuma é o alerta sobre os novos moralismos: existe, hoje, um forte discurso que busca negar aos jovens o acesso a obras tidas como “impróprias”, sob o pretexto de “preservá-los”. Evidentemente, não se trata de expor nossos pimpolhos ao mundo-cão e à pornografia, mas é preciso tomar cuidado com os efeitos dessa suposta proteção, que se mostra ingênua, ao acreditar que as crianças não sabem onde procurar a informação que lhes interessa, e equivocada, ao misturar o erro grotesco da Secretaria de Educação de SP com uma falha na distribuição de um livro que não vai escandalizar ninguém que se dê ao trabalho de lê-lo. E que vale muito a pena, para adolescentes e para adultos.

Coralie Clément

Você conhece Coralie Clément? Cantora de "safra" recente, de quem tenho dois discos bastante diferentes entre si (Salle des pas perdus e Bye bye beauté - se alguém conseguir os mais recentes, C'est la vie e Toystore, podemos negociar muito material pirata), ela empresta sua voz aveludada a canções escritas por seu irmão Benjamin Biolay. Este último, aliás, é um dos nomes fortes da nova geração da música francesa e participou do retorno de Henri Salvador aos estúdios e aos palcos.
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Aqui você confere duas canções de Coralie: Samba de mon coeur qui bat, que está na trilha sonora do filme Alguém tem que ceder (Something's gotta give, com Jack Nicholson), e L'ombre et la lumière. A letra, você sabe: está nos comentários.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

OS APÓSTROFOS EM FRANCÊS

Uma das características mais marcantes do francês é a enorme frequência do apóstrofo. Curiosamente, ao longo de quase sete anos como professor, percebo que é um aspecto que passa despercebidos a muitos alunos. Meus pupilos normalmente esquecem de colocar essa vírgula flutuante onde ela é obrigatória ou a escrevem onde ela não poderia estar. E, normalmente, cometem esses erros opostos no mesmo texto!
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Mea culpa: no material didático, o uso do apóstrofo só é explicado de maneira sistemática quando da apresentação dos artigos definidos e dos pronomes-sujeitos. E apenas na primeira unidade do primeiro semestre. O assunto não é retomado depois, até porque aparecem outros temas, mas o fato é que a ortografia é um ponto bastante negligenciado pela maioria dos livros de língua estrangeira. O resultado é que, na falta de instruções mais detalhadas, os alunos seguem a intuição, e essa, creio eu, é orientada pelo conhecimento do inglês. Se, nesse idioma, a escolha entre I am e you are ou I’m e you’re, por exemplo, depende do grau de formalidade do texto, assim também deve ser em francês. Imagino que os alunos pensem assim. Acabam esquecendo que, no início do curso, o professor disse que era proibido escrever, dizer ou mesmo pensar uma monstruosidade como je habite, em vez de j’habite. Além disso, um mínimo de leitura deixa claro que esse tipo de coisa nunca acontece, em nenhum tipo de texto. Meia culpa: culpa compartilhada...
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Bom, mas se o problema é falta de explicação sistemática, lá vai: o apóstrofo é de uso obrigatório quando a vogal final de certas palavras encontra a vogal inicial ou o h mudo da palavra seguinte, e serve para marcar que essa vogal final não é pronunciada. Essa queda de uma vogal se chama “elisão” (élision). Aqui, me refiro especificamente aos seguintes vocábulos: je, me, te, se, le, la, ne, que e de, que viram j’, m’, t’, s’, l’, n’, qu’ e d’. SISTEMATICAMENTE. OBRIGATORIAMENTE. E exatamente porque se fala assim. Se, em vez de pronunciar j’ai (jé ou jê), você soltar je ai (je-é), não vai dizer “eu tenho”, e sim je hais (“eu detesto”, do verbo haïr). Isso seria... detestável.
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Não tenha vergonha de usar tantos apóstrofos quanto for necessário: J’imagine qu’André n’a pas de problème d’argent, parce qu’il t’a acheté un collier en or (“Imagino que André não está com problema de dinheiro, porque ele comprou um colar de ouro para você”). Desculpem o exemplo meio esquisito, não estava muito inspirado.
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Algumas observações importantes:
Si só se torna s’ diante de il. Lorsque (“quando”) só sofre elisão antes de il(s), elle(s), on, en e un(e) – nesse caso, escreve-se lorsqu’. Com quoique (“embora”, “ainda que”) é quase a mesma coisa (quoiqu’), com exceção de enQuoique en ce moment... (“Embora neste momento...).
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O adjetivo possessivo feminino (ma), quando se encontra diante de uma vogal ou de um h mudo, não se transforma em m’, e sim em mon: ou seja, embora la + amie fique l’amie (“a amiga”), ma + amie = mon amie (minha amiga). Até porque mamie significa “vovó”.
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Na regra ortográfica, NUNCA se usa apóstrofo antes de consoante. Mas você já deve ter visto isso, até nas letras de música que eu posto aqui, e as do Yves Jamait são o melhor exemplo. Bom, trata-se de uma representação da língua falada, na qual costumamos “engolir” o e não acentuado e mesmo algumas consoantes ou algumas palavras que, em princípio, deveriam ser pronunciadas. Assim, se você se deparar com algo como i m’dit qu’y a pas d’souci mais j’crois pas qu’tu sois d’accord, saiba que se trata de um modo de retratar a maneira coloquial de pronunciar a frase il me dit qu’il n’y a pas de souci mais je ne crois pas que tu sois d’accord (“ele me diz que não tem problema, mas eu acho que você não concorda”). Mas lembre-se: se você escrevesse assim numa prova, seu texto pegaria sarampo!
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E pelamordedeus: o artigo definido plural (les) não vira l’ nunca-jamais, em hipótese nenhuma! Da mesma forma, não faz sentido usar apóstrofo onde não existe uma vogal para cair, como é o caso do artigo indefinido masculino (un): escrever un’hôtel, em vez de simplesmente un hôtel, é um atentado ao bom senso. E como chatice pouca é bobagem, vou insistir: também não se usa apóstrofo com o artigo indefinido feminino (une).
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Concluindo: acima, falei mais de uma vez sobre “h mudo” (h muet). Explico: não é que exista alguma situação em que o h tenha som, mas algumas palavras começadas com essa letra não admitem élision nem liaison (aquele fenômeno no qual les hôtels se pronuncia “lêzôtél”). Esse h aspiré está devidamente indicado no dicionário com um asterisco antes da palavra ou com alguma marca na transcrição fonológica. E para aprender... só estudando. Assim, mãos à obra!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Avez-vous déjà vu... ?

No blog do Marcos, meu colega no Centro de Línguas, tem uma seção com uns vídeos muito engraçados chamados "Avez-vous déjà vu... ?". Normalmente, são animações tratando de situações absolutamente bizarras, do tipo "Você já viu porcos-espinho brincando de teatro de sombras?", e que sempre rendem boas risadas. Para conferir o que Marcôs, le Robert disponibilizou para a gente, clique aqui.
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P.S.: Tentei resistir à tentação, mas não deu. Gostaria de lembrar que déjà vu, cuja tradução literal é "já visto", quando aparece em frases como C'est du déjà vu, significa "clichê", "coisa batida". Assim, se você quiser dizer, por exemplo, que o filme que você viu no domingo passado não te surpreendeu em nada, você pode dizer Que du déjà vu ("Só clichê"). Não entendeu esse que? Clique aqui.
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Já aquela impressão de que estamos vendo algo pela segunda vez se chama déjà-vu (com hífen) ou paramnésie (em grego, "mémória paralela").

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Trem da Vida

Ontem, revi um de meus filmes favoritos: Train de Vie. O título em português é uma tradução literal do original, e é bastante apropriado para essa comédia que relata as aventuras de uma aldeia de judeus situada na França ocupada pelas tropas nazistas. Ao saber da chegada das tropas alemãs, que deportariam todos para campos de concetração, o Conselho dos Sábios se reúne e adota uma estratégia original: organizar a própria deportação, criando um falso trem nazista para escapar até a Palestina. Alguns membros da comunidade se deveriam interpretar os nazistas, ao passo que outros fariam o papel de prisioneiros. E eles ainda têm que escapar de uma Resistência Francesa trapalhona, que tenta o tempo todo descarrilhar o suposto comboio nazista.
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Mas é interessante notar que, em francês, train de vie é uma expressão um pouco antiga que significa "modo de vida". Se o título se referisse simplesmente a um "trem da vida", o título seria Le train de la vie (repare que o artigo antes de "vida" tem o mesmo efeito que teria em português). Train, aliás, tem como um de seus sentidos "maneira de ir, de evoluir". A expressão en train significa "em andamento", por isso mettre en train e, consequentemente, mise en train, podem ser traduzidas com os neologismos (um tanto desajeitados e deselegantes, a meu ver) "operacionalizar" e "operacionalização". (Em outra ocasião, já me dediquei a essas expressões com mise.) E não é por acaso que a locução être en train de + infinitif é uma equivalente do nosso "estar + gerúndio" - só que eu já falei bastante sobre isso em um texto anterior.
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Voltando à história do falso trem nazista: o que resulta desse insólito ponto de partida é um filme delicioso, repleto de humor, delicadeza e emoção, com uma fotografia belíssima. Tratando-se de um filme de 1998, pode não ser assim tão fácil de encontrar nas locadoras (eu mesmo só pude revê-lo porque meu primo o baixou), mas sem dúvida vale a pena procurá-lo. Abaixo você confere o trailer (sem legendas, sinto muito) e uma de minhas cenas preferidas, em que o louco, Schlomo, intervém em uma violenta discussão acerca da existência de Deus (com legendas em português).


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Le complexe du Corn Flakes

Como meu último post falou sobre um símbolo francês, lembrei de uma música de adivinha qual cantor? Ganha um "viva" quem responder Mathieu Chedid. Pois bem, o recordista do penteado mais sensual do Velho Mundo fez uma canção muito divertida sobre a relação entre franceses e americanos, o que nos ajuda a ver que aquele francês com uma baguette no sovaco, um béret na cabeça e um discurso anti-ianque na ponta da língua é um estereótipo que não convém generalizar, como tentei mostrar em outro texto.
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Alguns aspectos interessantes: 1) nunca é demais explicar: ricain é uma redução de américain; 2) nas palavras que se pronunciam com um "êi" em inglês, os franceses costumam mandar um "é": flakes ("flêiks"), dessa forma, vira "fléks". Aliás, costumo brincar que é necessário falar francês para entender um francês falando inglês. (Para não ser injusto, é bom lembrar que os europeus, de modo geral, costumam estudar inglês britânico, o que causa um distanciamento maior com o inglês a que estamos habituados.) Essa fonética à la française, é bom ressaltar, não é política, é só sotaque mesmo - brasileiros transformam Red Hot em "rédji-rótchi", espanhóis dizem "güíski" para whisky e tá tudo certo.
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No mais, espero que você curta o clipe. A letra está nos comentários.


domingo, 17 de janeiro de 2010

Le coq gaulois et le coq au vin



Dia desses, passando em frente a um bar chamado Coq ou Le Coq, uma amiga comentou que o letreiro daria a entender, a quem não conhece francês, que coq significa "rei", e não "galo". De fato, há uma pequena coroa sobre a letra "o". Enfeite aleatório? Nada disso. Para entender por que o galo é um dos símbolos da França (presente no uniforme de seleção de futebol, p. ex.), transcrevo aqui uma pequena explicação que se encontra no livro La France aux cent visages, de Annie Monnier.
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Sans être réellement un emblème national, l'image du coq gaulois est souvent liée à celle de la France. Ce sont les Romains qui ont les premiers associé le coq et la Gaule, puisque le mot « gallus » désigne, en latin, et le coq et le Gaulois. Utilisée à la fin du XIIe siècle pour ridiculiser le roi de France, la comparaison est restée péjorative. Vaniteux, batailleur, sot, sensible à la flatterie, le coq n’est pas un animal glorieux ! Mais, peu à peu, devenu au contraire symbole du courage et de la victoire, cet emblème a été assumé par les Français eux-mêmes. Ainsi à la cour de François Ier, le coq figurera à côté de la fleur de lys, de la couronne et de la salamandre. La révolution française lui accordera une place privilégiée. Il figurera sur différentes monnaies de la IIe et de la IIIe Républiques.
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On le retrouve aujourd’hui sur la grille du Palais de l’Élysée, résidence du président de la République, et sur le clocher des églises.

.Clique aqui para ler um comentário muito interessante sobre o galo francês, num site que também apresenta uma série de dicas interessantes sobre o país de Astérix e Obélix. Fico até meio chateado de mandar o link, já que me arrisco a perder leitores para outro blog, mas é meu dever repassar informação de utilidade pública :)
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Pequena curiosidade: o lugar em que se encontra o galinheiro (poulailler), em francês, se chama basse-cour. O termo designa o terreiro no qual se criam aves e pequenos animais domésticos. O engraçado é que cour significa tanto “pátio” quanto “quadra” (de tênis, p. ex.) ou “corte” (como a corte de um rei, como se vê no texto acima).
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A receita do coq au vin, verdadeiro monumento da gastronomia francesa, segue abaixo, com a tradução entre parênteses, em itálico (a foto não é minha):
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COQ AU VIN (GALO AO VINHO)Pour 4 personnes (Para 4 pessoas)
1 coq (ou poulet) de 2 kg coupé en morceaux (1 galo (ou frango) de 2 kg cortado em pedaços)
200 g de lardons coupés en dés (200 g de bacon cortado em cubinhos)
300 g de champignons (300 g de cogumelos frescos)
50 cl de vin rouge (500 ml de vinho tinto)
2 cuillères à soupe de cognac (2 colheres de sopa de conhaque)
60 g de beurre (60 g de manteiga)
1 cuillère à soupe de farine (1 colher de sopa de farinha)
2 gousses d’ail pilées (2 dentes de alho socados)
2 oignons hachés (2 cebolas picadas)
1 bouquet garni (persil, thym, laurier) (1 amarrado de ervas (salsa, tomilho, louro))
Sel, poivre (Sal, pimenta-do-reino)
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Mettez dans une cocotte les morceaux de coq et faites-les dorer dans le beurre de chaque côté, 10 minutes. Sortez-les. Dans la même casserole, faites cuire les lardons à feu lent pendant 5 minutes. Ajoutez les oignons et faites-les dorer. Ajoutez alors les morceaux de coq et, en tournant, incorporez la farine et versez le vin. Mélangez bien, salez et poivrez. Mettez l’ail et le bouquet garni. Couvrez et faites cuire 1 heure à feu lent.
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Lavez bien les champignons et mettez-les dans la cocotte. Faites cuire encore 30 minutes. Versez le cognac dans la cocotte et cuisez à feu doux encore 5 minutes. Servez avec des pommes de terre cuites ou en purée ou avec des pâtes fraîches.
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(Coloque, em uma panela, os pedaços de galo e doure-os na manteiga dos dois lados, por 10 minutos. Retire-os. Na mesma panela, cozinhe o bacon a fogo brando durante 5 minutos. Adicione as cebolas e doure-as. Adicione então os pedaços de galo e, mexendo, incorpore a farinha e despeje o vinho. Misture bem, ponha sal e pimenta. Coloque o alho e o bouquet garni. Cubra e cozinhe por 1 hora a fogo brando.
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Lave bem os cogumelos e coloque-os na panela. Cozinhe por mais 30 minutos. Despeje o conhaque na panela e cozinhe a fogo brando por mais 5 minutos. Sirva com batatas cozidas, com purê de batatas ou com massa fresca.)
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P.S.: É raro usar galo hoje em dia. Assim, compre um frango e seja feliz. Mas saiba que você vai ser ainda mais feliz se usar uma bela galinha caipira. E não se esqueça da maldição de sete anos de azar se você insistir em usar aqueles cogumelos em conserva horrorosos, que não têm gosto de nada!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Nova Ioga

Olha que tchuque-tchuque:

Poemas do Wilberth

Dois poemas de um cara chamado Wilberth, que meu tio Buza conheceu na UERJ (mas acho que não é o professor da UFES):

CREPÚSCULO

Cai o sol...

Ai que tombo!


(SEM TÍTULO)
Quem tem boca vai a Roma
Quem tem boca vai a Londres
Quem tem boca vai à França

Pobre não tem boca

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Yves Jamait

Muitas pessoas acham que a música francesa se resume a Edith Piaf e a Charles Aznavour (que eu adoro, diga-se de passagem). Alguns, estranhamente, continuam com essa impressão depois de estudar francês. Vai entender... Como você pode verificar na seção Música deste blog, a França tem muito o que oferecer a seus ouvidos: muitos ritmos, muitas influências, muita gente boa. E olha que eu nem sempre me lembro de colocar canções aqui; se eu fosse postar alguma coisa sobre todos os artistas que me agradam, acho que faltaria espaço.
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Outro comentário que às vezes escutamos é que a música francesa é "esquisita". Trata-se, frequentemente, de comentários feitos por alunos que estão muito habituados a só escutar artistas americanos. OK, gosto é gosto, tem gente que acha que isso não se discute - eu discordo, mas bom... Seja como for, o ritmo francês por excelência é a chamada chanson. É um rótulo, a meu ver, tão vago quanto MPB: um guarda-chuva que inclui artistas completamente diferentes entre si. Mas alguns traços são marcantes: um certo ritmo "bem francês" e uma grande atenção dada ao texto, muitas vezes salpicado de humor.
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Yves Jamait, de quem eu apresento três músicas aqui, é um bom representante desse estilo. Suas letras, que vão do divertido ao sério, usam e abusam de um estilo muito próximo ao da fala coloquial, e são excelentes para aprender francês. Perceba o uso dos apóstrofos: muitos deles estão "errados", e indicam o e caduc (que não se pronuncia). É importante lembrar que, de acordo com a regra ortográfica, nunca se usa apóstrofo antes de consoante; afinal, esse sinalzinho indica que a vogal anterior caiu para não produzir hiato com a que vem depois dele. Um dia volto a falar do assunto. Outros aspectos marcantes são os "ne" da negação, que vão pras cucuias quase sempre, além de uma série de expressões correntes que você pode me perguntar caso não encontre no dicionário..
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OK tu t'en vas quebra completamente com o clichê você-vai-me-abandonar-e-meu-mundo-vaicair. Reste é plutôt um poema de amor, mas com um balanço muito legal - e a voz inconfundível de Jamait cria todo um clima. Jean-Louis eu fui conhecer hoje e postei porque o clipe é um barato. No comentário, você encontra o texto da primeira e da terceira (em Reste, você acompanha na tela mesmo). Nos vídeos relacionados, dá pra fazer a festa!





quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Não foram poucas as vezes em que algum conhecido ou algum aluno, ao se deparar com meu ateísmo declarado, me disse algo como “não acredito na religião, mas acredito na ”. Trata-se, em geral, de pessoas que estudaram, que ouviram críticas perfeitamente razoáveis, às vezes duríssimas, à igreja católica, às diferentes denominações protestantes ou, ainda, ao judaísmo ou ao Islã. Trata-se, em geral, de pessoas que não frequentam nenhum culto, que não dão importância a rituais místicos ou a práticas transcendentais. Trata-se, em geral, de pessoas que nem acreditam no deus das religiões ou que fabricaram para si mesmas um deus tão vago, tão abstrato, tão indefinível, que acho que é só um modo de não confessar para si mesmos que são ateus.
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O que mais me incomoda em “ateus enrustidos” é que muitas vezes eles têm um lado condescendente com a religião, um certo medo de chocar os outros ao dizer o que eles realmente pensam, uma estranha vergonha de seu ceticismo. No caso particular desses que dizem “eu acredito na ”, parece-me que o problema é uma compreensão meio vaga do sentido desse termo.
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Fé é uma palavra empregada em diversas expressões, como “tenho fé que vai fazer sol”, “vai com fé que dá certo” ou “Fulano não tem fé na vida”. Acredito que estamos, aqui, diante de expressões idiomáticas nas quais “fé” significa “confiança”, “boa-vontade” ou “otimismo”. Vou, então, tentar pôr os pingos no is e definir do que estou falando quando escrevo “fé” no meu texto. O sentido central desse termo, que está subjacente às expressões citadas acima, é o de convicção. Mas, se você olhar direito, vai perceber que essa convicção tem um componente importante: ela não é baseada em dados materiais objetivos, precisos. Imagine se um meteorologista afirmasse “tenho fé que o domingo vai ser ensolarado”! Ele não gozaria de muito crédito. Ou estaria gozando da nossa cara.
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Essa compreensão de fé como “convicção sem base material” é especialmente válida para aqueles que, em sua vida, costumam validar suas ideias e ações por argumentos sólidos mas que, confrontadas com o questionamento da religião, ao não encontrar u m modo de fundamentar sua crença, apelam para a chamada “fé”. Há também, como eu mencionei acima, aqueles que não creem, mas que dizem “crer na crença”, ou seja, têm “fé (confiança) na fé (crendice – dos outros)”.
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Para esses últimos, gostaria de explicar por que Richard Dawkins diz que a fé é a “mãe de todas as burcas”: somos ensinados a pensar que ter fé é algo positivo, mas ter fé signifgica simplesmente estar imbuído de uma crença que não se baseia em argumentos – estamos, na verdade, falando de um sentimento que pode impelir a fazer o bem, a ser gentil, a realizar grandes gestos de generosidade, mas também a condenar, oprimir e até matar, tendo como único respaldo uma ideia que vem do além e se transforma numa certeza individual que não admite negociação. Qualquer pessoa familiarizada com a história da humanidade vai perceber que as crenças fortes, o mais das vezes, serviram muito mais para atiçar do que para refrear nossos impulsos malignos. Como alguém já disse: “Sem a religião, pessoas boas fariam o bem e pessoas más fariam o mal. Somente a religião pode fazer uma pessoa boa praticar o mal.” Basta pensar nas Cruzadas, na Inquisição, nas burcas islâmicas, na excisão de clitóris de meninas de dois anos (prática corrente em muitas tribos africanas) e nos muitos atos de violência perpetrados contra mulheres, homossexuais, negros, crianças, “infiéis” diversos...
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Você pode também pegar esse exemplo de um homem que agiu inspirado por sua fé:

Convém lembrar que esse conceito de fé se aplica igualmente ao soldado nazista convencido da superioridade da raça ariana, ao oficial da KGB preocupado em defender o governo do proletariado ou ao general brasileiro dos anos 60-70 que trabalhava para garantir que nosso Brasil Varonil estivesse “em ordem”. É aquela história: fé cega... e faca amolada!

domingo, 29 de novembro de 2009

É HEXA!!!

Nunca falei sobre futebol nesse blog, e não devo voltar a falar tão cedo, mas depois de 17 anos com o grito de campeão entalado na garganta, finalmente posso dizer:
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CHUPA QUE É DE UVA!!!!!
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Me desculpem, mas com o Mengão campeão, je manque d'élégance.
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P.S.: Hoje vi na televisão um monte de repórteres comentando o fato de que o Andrade (o grande Andrade, diga-se de passagem) é um dos únicos treinadores negros do Brasil. Estavam dando bastante importância a esse fato, o que muito me surpreendeu: eu estava prestando atenção no excelente trabalho que ele realizou, e a cor da pele dele era a última coisa que me interessava. É sério, eu sinceramente nunca sequer pensei a frase "o Andrade é negro" - se bobear, ele podia ser verde que eu não teria reparado!

"Psychopathe", de Bénabar

Canção divertidíssima de Bénabar. Quer dizer, desde que você goste de humor negro... Não é um clipe oficial, mas vale a pena pra você escutar a música.
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Especialmente interessante, também, para observar contruções típicas do francês oral, como a supressão do "ne" da negação e do "il" de expressões como "il faut" ou "il y a". Sem contar no vocabulário e na famosa construção ne... que. Repare bem que, em y'a pas que toi qui as des problèmes, temos a negação dessa expressão, ou seja "não é só você que tem problemas". Se fosse y'a que toi qui as des problèmes, seria "só você tem problemas".
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Uma boa consulta a um dicionário on-line resolve a maioria das dificuldades. A letra, como sempre, se encontra no comentário. Se você, mesmo depois de pesquisar, continuar sem entender algo, não hesite deixar sua pergunta no comentário.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A expressão da restrição em francês

Uma das maiores pegadinhas para quem aprende francês é a construção NE + verbo + QUE, que tem cara de negação mas exprime, na realidade, a restrição, podendo ser traduzida como "só" ou "somente". Trata-se de uma tournure tão tipicamente francesa que os alunos raramente a assimilam, ainda que o professor volta e meia assinale sua importância e sua grande frequência de uso.
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Na verdade, o brasileiro que estuda francês costuma usar seulement para exprimir o que diria com nossa palavrinha . Ainda que não esteja incorreto, soa quase tão artificial quanto dizer apenas ou somente em uma conversa coloquial. Assim, quando um aluno diz “il y a seulement dix personnes en salle de classe” (pensando “só tem dez pessoas em sala de aula”), ele não comete nenhum erro gramatical, mas um francês provavelmente diria “il n’y a que dix personnes en salle de classe”. A questão é que nós, professores, normalmente não vamos interromper uma conversa para acertar uma frase que já está certa e que seria perfeitamente compreendida por um falante nativo (corrigir o aluno às vezes atrapalha o diálogo, e estamos interessados no que ele tem a dizer); com isso, essa maneira não tão natural de falar acaba se cristalizando.
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O grande problema, na verdade, nem é dizer seulement, por mais que soe um pouco deslocado, mas deixar de aprender a construção NE + verbo + QUE, de longe a mais usada. Dessa forma, para dizer “Só estou com 20 euros aqui no bolso”, o natural é mandar um “Je n’ai que 20 euros sur moi” ou, seguindo a tendência de engolir o “ne” na fala corriqueira, “J’ai que 20 € sur moi”. Ao que alguém poderia responder: “Que ça?!” (“Só isso?!)
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Para fazer a restrição sobre o sujeito da frase ou sobre o verbo, é preciso usar tournures que parecem meio complicadas mas que são bastante correntes, como “Il n’y a que lui qui puisse régler ce problème” ("Só ele pode resolver esse problema"). Como você deve estar imaginando, em francês coloquial, costuma sair “Y’a que lui...” Já para focar a restrição sobre um verbo, usa-se faire para ajudar. Assim, a melhor forma de dizer “Ele só trabalha” é “Il ne fait que travailler” (“Ele só faz trabalhar”), sem esquecer da tendência a omitir o ne da negação no francês oral.
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Enfim, é preciso lembrar que há outras maneiras importantes de exprimir a restrição em francês: juste, rien que, c’est tout e seul.
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Com esse último, uma particularidade interessante: ele concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere. Assim, repare o plural na citação de P. Hazard : “Seuls doivent compter les faits positifs” (“Só devem importar os fatos positivos”, ou “Somente os fatos concretos devem ser levados em conta”). Nossa expressão “Só Deus sabe” seria, em francês, “Dieu seul le sait”. Digo “seria” porque os franceses, comparados com os brasileiros, usam muito pouco essas expressões de origem católica – isso está ligado, segundo meu ponto de vista, ao fato de mais da metade dos franceses se declararem non-croyants (ateus ou agnósticos) e à cultura francesa de laicidade (religião é algo privado e ninguém precisa étaler suas convicções o tempo todo).
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Juste funciona como seulement, normalmente determinando substantivos. Assim, “Ele trabalha só três dias por semana” sairia “Il travaille juste trois jours par semaine” (ou “Il ne travaille que trois jours par semaine”). Juste também significa “justo” e “certo”. Por sinal, juste foi o ponto de partida para uma cena divertidíssima de Le dîner de cons. O personagem interpretado por Thierry Lhermitte tenta dizer a François Pignon que uma certa pessoa se chamava Juste Leblanc. Vendo a cena e a dificuldade de Pignon em captar a mensagem, você vai entender o que significa a palavra con, caso não saiba...



Rien que costuma causar estranheza, mas não é nenhum bicho de sete cabeças: “Rien que de penser à cette scène, j’ai envie de rire” (“Só de pensar nessa cena, fico com vontade de rir”). E a expressão “c’est tout” costuma ser usada no final da frase: “Je lis, c’est tout” (“Só estou lendo”).
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Viu? Só isso. OK, depois de um texto verborrágico como esse, você pode me olhar cinicamente e disparar: “Ah bon, c’est tout ?”

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ouïe sélective

L'ouïe sélective est un syndrome ontologique très répandu chez l'homme, et il demeure souvent méconnu auprès des femmes. Par exemple quand une femme dit :
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"Ecoute un peu ! C'est pas possible ce bordel ! Toi et moi, on va nettoyer tout ça ensemble. Regarde, toutes tes fringues traînent par terre et si on ne fait pas une lessive immédiatement, tu vas devoir te balader à poil. Tu me donnes un coup de main maintenant et quand je dis ça, je veux dire là tout de suite !"
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L'homme comprend :
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Ecoute un peu blablablabla toi et moi blablablabla ensemble blablablabla par terre blablablabla à poil blablablabla un coup blablablabla maintenant blablablabla là tout de suite !
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A ce jour aucune thérapie ne semble pouvoir soigner efficacement cette faiblesse auditive.
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De toute évidence les hommes concentrent leur attention sur l'essentiel uniquement. Quel esprit de synthèse prodigieux & exceptionnel !!!!